Explico de imediato, antes que uma chuva de pedras caia sobre minha cabeça (mas ainda correndo o risco. E assumo), o “bonitinho” do título aqui corre por conta do bem acabado, limpo e correto, clean, padrão grande estúdio, no caso a Legendary Pictures, que levou a fome ao encontro da vontade de comer da insaciável devoradora Netflix. Bem feitinho e simpático. E o ordinário é exatamente o que diz o vocábulo: o comum, o básico, o morno, enquanto o extraordinário ausente é aquilo muito empenhado, além do comum e do banal, o singular e, claro, o melhor. O “extra”.

Millie Bobby Brown é  Holmes: personagem é colocada exaustivamente a falar direto para a câmera
Millie Bobby Brown é Holmes: personagem é colocada exaustivamente a falar direto para a câmera | Foto: Netflix/ Divulgação

Outro prefaciozinho antes da crítica propriamente. Adolesci mergulhado em livros, varando madrugadas, metido nas aventuras de dois personagens soberanos, senhores de minha imaginação: o nobre Tarzan e Sherlock Holmes, super-heróis sem sabres de luz, enfrentando inimigos sem qualquer sofisticação tecnológica, de mãos limpas e mente afiada, respectivamente o homem-macaco dos 24 títulos criados pelo americano Edgar Rice Burroughs e o lendário e brilhante detetive londrino concebido pelo escocês Arthur Conan Doyle, em quatro romances e várias coletâneas de contos. Ambos saídos da era vitoriana. A relação de respeito e admiração que estabeleci com o universo ficcional criado pelos dois escribas – entre muitos outros, igualmente notáveis – foi, no mínimo, imprescindível e determinante para depurar o sentido da aventura e o raciocínio astuto (e dedutivo) para resolver certas pendências e suspeitas trazidas por filmes que no dia a dia se tornam objeto da produção das criticas. Como este, “Enola Holmes”.

A esta altura o filme já é disparado um dos queridinhos das plataformas da turma do sofá. O pessoal está se divertindo com o jogo de gato e rato que tem como pano de fundo os direitos civis, os direitos das mulheres e o a luta pelo sufrágio universal tentando adicionar profundidade e sabor a uma história sem graça. Um dos problemas é que os casos do jovem marquês, Lord Tewkesbury, e de Eudoria Holmes, a desaparecida mãe de Enola e dos irmãos Sherlock e Mycroft Holmes parecem muito distantes um do outro, disputando a atenção da heroína e a do espectador. Sem foco no meio, o filme se perde pela metade antes de retomar a conclusão.

Na superfície, “Enola Holmes” é sobre uma jovem em busca de si mesma; mas há pontas soltas que o filme não consegue amarrar. Como a ausência de investigação mais aprofundada do poder, dos laços familiares e dos riscos de transformar um mundo determinado a permanecer o mesmo. Outra é a presença de um Sherlock amorfo, estrangulado em ternos pelo menos dois números menores que seu tronco-fashion Superman modelado na malhação nos gyms da vida. Ou seu alfaiate é o pior de Londres. Mas esta é preocupação não exatamente de quem assina a coluna, mas do espólio de Conan Doyle – afinal, não só Sherlock nunca teve irmã caçula como o próprio detetive jamais esboçou traços ou trejeitos de almofadinha, e suas descrições na escritura de Doyle são parcimoniosas quanto à seus dotes físicos e à revelação de suas emoções. Falta a amarração do carisma. E que falta um Dr. Watson faz !

Não resta dúvida de que a escritora estadunidense Nancy Springer soube surfar com desenvoltura nas águas de Doyle, e não escondeu suas ambições de obter sucesso semelhante ao de J.K. “Harry Potter” Rawling entre aquele segmento que a critica literária classifica como “jovem adulto”: são seis novelas com a personagem nascida da licença fictícia de Springer. E que deixa no ar um sinal de fumaça de franquia. A Netflix não perdoa. Mas uma dose de carisma (ausente no todo) não faria mal.

A Enola o pouco que é de Enola. A personagem (e o crédito é da atriz Millie Bobby Brown) tem potencial: é inteligente e independente, alguém que batalha pelo que é certo (acho que falta maior consciência quanto às armas feministas). O que, no entanto, compromete seriamente esta linha de atuação é o recurso exaustivamente recorrente adotado pelo diretor Harry Bradbeer, colocando Enola a falar para a câmera – o método de “derrubar” a quarta parede, que é o intérprete falando diretamente para o espectador. Cansa, quando extrapola. Outro ponto a ponderar: os mistérios envolvendo o jovem marquês e a mãe sumida, divididos em diferentes fragmentos, começam a se alongar e se arrastar, deixando as coisas meio desanimadas e decepcionantes. E Helena Bonham Carter está sub-sub utilizada.

Em tempo. Por mais que seja um anagrama esperto, utilizado para reafirmar que a personagem está sozinha em seu enfrentamento feminista (Enola/alone/solitária), e por mais singelo/fofo que seja o significado indígena (da nação Cherockee) na América do Norte (magnólia), e ainda que cinéfilos possam se lembrar da garotinha amiga de Kevin Costner em “Waterworld”, não consigo afastar lembranças funestas e arrepiantes. Enola (Gay) era o nome do avião que em 6 de agosto de 1945 lançou a bomba que dizimou toda a população de Hiroshima (78 mil mortos no momento da explosão e muitos mil a mais nos meses e anos a seguir). Grávidas de ocasião, pensem nisto antes de batizar as filhotas.

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