Bonecos à mingua
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de abril de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Programações extintas, espaços inadequados, verbas sofrendo cortes significativos, editais adiados e sem perspectiva de serem realizados. A situação do teatro de bonecos no Estado não está nada boa. Até mesmo o Dia Nacional do Teatro de Bonecos, comemorado no último domingo, e tradicionalmente marcado por atividades da iniciativa estadual e municipal, foi ignorado. ''Estamos de luto'', informou a presidente da Associação Paranaense de Teatro de Bonecos (APTB), bonequeira Olga Romero ao analisar a conjuntura.
Para a bonequeira que há 37 anos se dedica a essa arte, o teatro de bonecos está sendo visto como um ''primo pobre'' nesse pouco tempo de gestão do novo governo. ''Nós sabemos que estamos em um período de transição, mas estamos preocupados com a falta de perspectiva para a área'', diz. Um dos principais eventos dedicados ao teatro de bonecos, o Festival Internacional de Bonecos de Curitiba, sofreu corte de verbas e consequentemente de grupos convidados.
Iniciativa do governo estadual, o festival vai acontecer entre os dias 11 a 20 de julho e não é o único que passa dificuldades. O edital de teatro de bonecos para adultos, aberto pela Fundação Cultural de Curitiba em janeiro, atravessa uma lacuna de quase três meses sem apresentações por falta de espaço. O Teatro Maria e o Teatro do Piá, onde as apresentações aconteciam precisaram passar por reformas, visto a precariedade dos dois locais, e só no próximo final de semana a programação volta à ativa, na Casa Hoffmann. É uma solução paliativa, segundo informou a fundação, até que os dois teatros sejam reformados.
O problema, segundo Olga, é que a situação desestimula não só os bonequeiros, mas o próprio público que não sabe aonde ir na apresentação seguinte. ''É preciso criar uma rotina para as apresentações, senão o público não volta'', argumenta. Ela ressalta que existem ainda dois fatores que estão desestimulando a classe dos bonequeiros do Paraná. O primeiro é o fato da capital ter perdido, há três anos, o seu Teatro de Bonecos. Instalado na Mateus Lemes, no Largo da Ordem, o teatro foi embargado na gestão do governador Jaime Lerner (PFL) por que estava numa situação precária.
O antigo governo havia prometido construir um novo espaço nos fundos do Teatro José Maria Santos. O atual informou, através da assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura, que o prédio que servia de sede para o Teatro de Bonecos está na lista das obras que serão restauradas, mas o destino do local ainda não foi definido.
''A gente sonha com um bom espaço, mas até agora não obtivemos respostas nem do governo anterior nem do atual'', diz Olga. Outra questão é a redução no número de grupos paranaenses que vão participar do Festival Internacional de Teatro de Bonecos. ''Temos 22 grupos associados, mas só metade vai poder participar'', revela.
O diretor de produção do Centro Cultural Teatro Guaíra, responsável pelo festival, Warly Martins Ribeiro, confirma o corte, tanto de grupos, quanto de verba. O ano passado, o festival já trabalhava com um orçamento modesto de R$ 380 mil. Este ano, devem ser investidos entre R$ 250,00 e R$ 300,00 mil. De 20 grupos estrangeiros e nacionais, apenas metade de cada categoria deve participar. ''Ainda estamos analisando a participação dos grupos paranaenses, mas cerca de 15 devem integrar o festival'', adianta Ribeiro.
Uma reunião hoje à tarde, entre a direção do Teatro Guaíra e Associação Paranaense do Teatro de Bonecos deve definir a futura participação dos grupos paranaenses no festival. Ribeiro admite que o Teatro Guaíra está atrasado com a produção do evento, um dos mais importantes do País quando o assunto é bonecos, mas justifica o atraso com o período de transição do governo.
Quando o assunto é contrapartida do município, o consultor de Artes Cênicas da Fundação Cultural de Curitiba, diz que iniciativas não faltam. ''Este ano adiantamos o edital do teatro de bonecos, que geralmente acontece em maio, para janeiro e fevereiro'', explica. A seleção, de uma safra de 120 apresentações agendadas, aconteceu no início do ano, mas com o problema da falta de espaço, admitida por Bueno, a agenda sofreu uma lacuna. ''As apresentações começam no próximo final de semana'', anuncia.
Já o edital de teatro de animação para adultos, engavetado há dois anos, está previsto para agosto, mas o próprio Bueno adianta ''que não sabe se o edital será publicado''. Esbarrar na burocracia para ver a produção cultural ter continuidade não é uma singularidade dos bonequeiros. Pelo menos nesse quesito, eles estão ao lado das artes plásticas, cênicas, música e outras áreas artísticas que estão com o futuro comprometido.


