Quarenta anos de Bond no cinema. E que melhor maneira de celebrar, se não com um dos melhores filmes da saga 007, exatamente o vigésimo? Como sempre tudo é muito grande, muito expandido e barulhento. Mas felizmente para melhor o assunto aqui, entenda-se muito bem, é puro entretenimento, e não há o que dizer sobre cinema de conteúdo. Há até uma atriz recentemente ''oscarizada'', a bela e charmosa Halle Berry, para dar ainda mais prestígio ao evento. Ela é a mais nova ''Bond-girl'', aqueles exemplares que nos anos 1960, 70 e 80 não passavam de parceiras em trânsito de alcova e que, na última década, se converteram em mulheres combativas mas não assexuadas, para alívio não apenas do agente secreto mas das platéias masculinas, estatisticamente majoritárias na tietagem ao personagem.
Que ninguém se engane: com ''007 - Um Novo Dia para Morrer'', a partir de hoje em amplo circuito nacional (veja a programação de cinema nesta página), a série não alcançou seu apogeu e nem resulta um primor de qualidade. Mas o filme faz uso tão adequado de todos os seus recursos e é tão consciente de suas debilidades que o espectador respira aliviado e recompensado, por que não ? diante do descaramento das inverossimilhanças de um roteiro mirabolante, de resto uma das marcas registradas dessas quatro décadas de muita ação e glamour a serviço de Sua Majestade.
Para comemorar a rigor, decidiu-se que o argumento contivesse o maior número possível dos elementos que caracterizaram a série ao longo dos anos. Vilões megalômanos, edificações colossais, toques de exotismo, mulheres estonteantes, inventos extravagantes, perseguições eletrizantes a bordo de máquinas tão belas quanto letais e até toneladas de neve, além da homenagem explícita ao filme inaugural da era Bond, ''Dr. No'', com Halle Berry saindo das águas exatamente como Ursula Andress fazia há 40 anos.
E nada como uma providencial intriga internacional pinçada diretamente das manchetes para dar um tempero à história: no início da trama, Bond (Pierce Brosnan) está chegando de surf (isso mesmo, surfando!) à zona desmilitarizada entre as duas Coréias para investigar o comércio ilegal de armas. Ele é preso e torturado, e depois de 14 meses é trocado pelo malvado Zao (Rick Yune). Quando volta à Inglaterra é posto em disponibilidade por M, a chefe do serviço de espionagem (Judi Dench), que suspeita que Bond possa ter revelado segredos aos coreanos.
Sem a lendária ''licença para matar'', 007 vai investigar por conta própria, começando por uma clínica de Havana (cenas filmadas em Cadiz, na Espanha), onde são realizadas cirurgias para substituição de DNA. Ali conhece a misteriosa e perigosa Jinx (Halle Berry) e reencontra Zao. Novas pistas agora levam Bond a Londres, mais concretamente ao milionário Graves (Toby Stephens), empresário que criou Icarus, dispositivo de alta tecnologia que permite fornecer luz solar a quem precise e possa pagar muito bem. Novo destino: Islândia, onde 007 vai conhecer o poder de Icarus. Mas tudo conduz de volta à Coréia, onde tudo começou. Todo esse tour, claro, em ritmo de adrenalina globalizada.
Há alguns anos as aventuras de Bond vinham em sensível queda, coincidindo com a chegada de Timothy Dalton ao personagem em uma fórmula que funcionava, mas com garra cada vez mais discreta. Depois de ''Licença para Matar'', a última participação de Dalton, foram seis anos de espera, tempo necessário para uma reflexão coletiva produtores e público sobre a anemia da série e sobre o que deveria mudar. Primeiro: um novo Bond, vivido pelo irlandês Pierce Brosnan, 50 anos hoje.
O ator reuniu o melhor de Sean Connery (a mistura de velhacaria com seriedade) e de Roger Moore (aquele ar de falso bom mocismo) par afinal conceber o 007 com quem sempre sonhou Ian Fleming, seu criador literário. Segundo: um diretor diferente para cada novo filme. Ao contrário de antes, quando artesãos como John Glenn e Lewis Gilbert assinavam filmes que já vinham praticamente prontos, os diretores de agora trazem aos filmes sua própria visão e força.
Em ''Die Another Day'', o neozelandês Lee Tamahori é uma espécie de oxigenador, a exemplo de Martin Campbell, Roger Spottiswoode e Michael Apted, o trio que colocou a saga de novo nos trilhos respectivamente em ''007 Contra Golden Eye'', ''O Amanhã Nunca Morre'' e ''007 - O Mundo não é o Bastante''.

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