Toda obra literária é aberta a interpretações. Cinco leitores de um romance terão, inevitavelmente, cinco visões diferentes sobre ele - seja sobre as soluções narrativas propostas pelo autor, as questões temáticas inseridas na trama ou as ambiguidades dos personagens.
O escritor Felipe Pauluk, 28 anos, confirmou essa sentença ao entregar cópias de seu romance ''Hit the road, Jack'' (Editora Faces) a alguns amigos antes de publicá-lo. Ao constatar a variedade de olhares sobre o texto, percebeu que tinha acertado a mão em sua primeira incursão pela prosa de fôlego. ''Teve gente que apontou coisas que eu nunca tinha imaginado. Cada pessoa está fazendo uma leitura, acho isso muito legal'', diz ele.
Pauluk lança o livro hoje, às 18h, na Revistaria Odisséia, em Londrina. A sessão de autógrafos contará com show da banda Brazilian Cajuns Southern Rebels. ''Hit the road, Jack'' (Caia na estrada, Jack) gira em torno do dia a dia de três jovens numa cidade ''que não muda'', expressão repetida à exaustão ao longo das 114 páginas para sublinhar a vida monótona do local.
O narrador é um balconista de lanchonete, entediado, que se vê como um fracassado e cujos contornos construídos pelo autor sugerem - ao avançar da narrativa - uma bomba-relógio ambulante à beira da explosão. Enquanto cultiva uma paixão platônica por uma estudante, cuja aparente inocência esconde uma volúpia selvagem, observa e idealiza a figura de um menino, Jack, que seria o seu antípoda existencial.
O encontro dos três personagens, com a formação de um triângulo amoroso, colocará a vida do protagonista-narrador de ponta cabeça. Jack surge como um ''estranho no ninho'', rebelde sem causa, capaz de tumultuar a ordem pacata do ambiente com as bandeiras da liberdade e da libertinagem remetendo ao universo da célebre geração beat norte-americana.
''Como ele, os beats não se importavam em largar tudo para viver suas aventuras e andar pelo País'', salienta o autor. ''Meu mundo era morto, sem forma e vazio. O de Jack era um oceano a navegar a veracidade da vida. Cheio de pessoas, cheio de podridão saudável para a adolescência'', sublinha um trecho do livro.
''Jack vivia, apenas vivia, tinha o dom de causar o efeito viver'', assinala outra passagem. Personagem enigmático, caberá ao leitor decifrá-lo, já que seu carisma será posto à prova a certa altura da narrativa. Pauluk explica que o título do livro surgiu espontaneamente, sem qualquer propósito de fazer trocadilho com ''On The Road'', de Jack Kerouac, obra e autor que fazem parte do imaginário beat.
''Na verdade, li 'On The Road' depois que meu livro já estava pronto. A própria editora sugeriu que eu mudasse o título quando soube que o romance de Kerouac estava sendo adaptado para o cinema, mas preferi mantê-lo. Quando tive a ideia de escrevê-lo, não pensei: 'vou fazer um livro beat'. Não tinha essa intenção'', explica.
Ele conta que deu cabo da obra em julho do ano passado. ''Estava envolvido em outro romance, daí fui num sarau e fiquei impactado com a leitura de um texto em que um personagem falava de outro personagem. Levei essa ideia para casa, sentei e comecei a escrever. Não fiz nenhum esboço. Escrevi em cinco madrugadas'', revela.
O autor desenvolveu uma ''técnica'' para escrever romances com rapidez. ''Eu tenho que estar focado. Tudo depende de minha agenda. Quando vejo que não tenho compromissos num mês, que não vou precisar interromper o trabalho da escrita para fazer outra coisa, aí me ponho a escrever'', diz. Tal disciplina rendeu outros cinco livros, todos na gaveta e praticamente prontos para publicação: dois romances, um volume de poesias, um título infantil e uma coletânea de fragmentos.
Nascido em Curitiba, Pauluk morou em Londrina, Florianópolis e atualmente reside em Cambé. Estreou em livro no ano passado com o lançamento do volume de poemas ''Meu tempo de carne e osso''. Iniciou-se na literatura compondo letras para uma banda de heavy metal progressivo. Depois passou a escrever poesias, contos e roteiros para cinema.
A linguagem cinematográfica, aliás, é uma das características marcantes de sua estreia na prosa de ficção cuja contracapa traz texto do cineasta paulista Toni Venturi (diretor dos longas ''Cabra Cega'' e ''Latitude Zero''). ''Sempre fui detalhista nas cenas. Gosto de deixar a ambientação bem clara para o leitor para que ele sinta a textura e o calor dos lugares descritos na narrativa'', salienta.
Ele não diz, mas não será surpresa se os personagens de seu romance aparecerem futuramente na tela.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Hit the road, Jack'', de Felipe Pauluk
Quando - Hoje às 18h
Onde - Revistaria Odisséia (Av. Jorge Casoni, 2.242), em Londrina
Quanto - R$ 15 o exemplar
Informações - (43) 3024-2740

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