Arnaldo JaborBomba oriental acaba com euforia americana
A Índia atômica trará a paz da morte ao ocidente paranóico
Dr. Abdul Kalam tinha sido um cachorro na sua vida passada. Reencarnara como menino de casta baixa; depois, por milagre, estudara num colégio católico em Bombaim, ficara com os olhos em brasa quando viu passar os aviões da Segunda Guerra, os Spitfires ingleses, e resolveu que seria um cientista para conquistar o mundo. Hoje, ele é o chefe do Programa Atômico da Índia, detonador das últimas três bombas subterrâneas e superstar em Nova Delhi, igual aos atores de cinema, coberto de pétalas de rosa por onde passa, com tapetes coloridos a seus pés. Dr. Kalam tem os cabelos longos como um John Lennon do subcontinente e disfarça como pode o sorriso de felicidade narcísica que lhe aflora aos lábios. Pudera - pois, em três dias, colocou a Índia nas páginas do mundo, a Índia, a terra dos sujos, o país-pária, o país da fome, das vacas tristes nostálgicas de bifes, dos cadávares estalando nas fogueiras sagradas, da sopa de micróbios no Ganges, país exportador de garçons para a Inglaterra e choferes de táxi em NY.
Dr. Abdul Kalam me olhou triunfante, com os belos cabelos brancos sobre a pele de cobre.
E começou a entrevista cantando: ‘‘Sonhemos! Somos uma nação de um bilhão, transformemos nossos sonhos em ação!’’
O Ocidente não respeita a Índia?
Não. Vocês nos acham inferiores, dentro de vosso julgamento de ‘‘mercado’’. Menos eficientes, menos limpos. Vocês inventaram a ciência... Ótimo! A gente copia e devolve... é o neocolonialismo antropofágico dos miseráveis! Ah! Ah! Agora, estamos mais parecidos com vocês: somos nucleares! Ah! Ah! Nunca os miseráveis tiveram poder. Hoje, têm. Por isso, os USA estão em pânico... Agora temos ‘‘potência fálica’’! Nossa bomba atômica foi o Viagra nuclear que a Índia tomou!... Ah... Ah! agora não somos mais eunucos, castrados...
Vocês não têm medo de sofrer as sanções econômicas da América?
Sempre comemos vento, ar, nada, lixo. Sempre transformamos merda em palácios de mármore de marajás, somos faquires históricos... estamos prontos para sofrer; podem vir sanções, que só nos fortalecerão. Quanto mais sofremos, mais perto estaremos de Krishna!
O senhor acha que a Índia está politicamente preparada para ter bomba?
Vocês acham que somos muito loucos para ter bomba, não é?
Somos loucos, sim. Eu, por exemplo, tenho duas cabeças, uma cabeça ocidental e outra oriental... Eu acredito que fui cachorro e ao mesmo tempo não acredito, pois sei que é ridículo... Mas a Madeleine Albright, aquela perua gorda, vestida de azul turquesa e bolsinha Chanel, decidindo o destino do Iraque e do Irã, não é loucura? E aquelas bonecas republicanas, o Gringrich, o William Cohen? Não são loucos? E o Ieltsin bêbada, vendendo bomba ao Irã? Meu amigo, existe loucura ocidental e loucura oriental. Pelo menos a nossa é mais poética... milenar...
Eu sou indiano, brownie como eles chamam, mas sou muito mais culto que eles todos. Eu conheço Fermi, Oppenheimer, Einstein, Von Braun, sei tudo sobre o racionalismo do século 18, que vocês usam até hoje para justificar vossa onipotência de ‘‘limpeza’’, vosso progresso ‘‘sem fim’’. Hoje, começa uma nova era: o Oriente armado! Acabou a ‘‘Pax Americana’’, um mundo falsamente calmo, com os famintos afundando na lama... Os sinais estão no ar; se não forem as bombas da Índia, serão os micróbios do Iraque, os peidos da Líbia, a merda geral da África. O mundo americano vai ter de criar uma ‘‘engenharia de tolerância’’ em relação a nós.
O que seria uma ‘‘engenharia de tolerância’’?
O mundo não começou com a chegada dos pilgrims no ‘‘Mayflower’’. Os americanos vão ter de engolir esta miséria santa e suja que está aqui há milênios! E nós vamos ensinar ao Ocidente a beleza do inútil! Contra a paranóia ‘‘progressista’’ de vocês, a contemplação poética do ‘‘prana’’; contra a produção do mercado incessante, o nada florido dos Vedas; contra vossa limpeza, a imunda água do Guanges; contra a eficiência, a música da cítara... Ontem, antes de apertar o botão do detonador ‘‘termonuclear’’, eu rezei para Shiva e para Einstein... ah! ah! O mundo agora é religião armada! Existem quatro bombas: a bomba cristã, a bomba judaica, a bomba de Confúcio e Mao e agora a bomba hindu!! São os quatros cavaleiros do vosso apocalipse... Como canta o Gita: ‘‘Eu agora me transformei na morte...eu sou o destruidor de mundos!...’’
Vocês vão criar uma nova guerra fria!...
Quem está criando a nova ‘‘guerra fria’’ são os americanos na Otan, jogando os países contra a Rússia... Recomeçam uma guerra fria só pra vender armas...
Mas, doutor Kalam, e o perigo da morte para o mundo?
A beleza da morte pode dar mais paz ao Ocidente maníaco... A Índia vai trazer um novo sabor a este mundo chato, mercadológico, a este tédio administrativo. A bomba da Índia acabou com a complacência pós-moderna da América!
A vida do homem ocidental está imersa numa idéia de ‘‘progresso infinito’’; logo, essa vida não deveria ter fim, já que há sempre possibilidade de ‘‘mais progresso’’, quem morre no Ocidente jamais chega a atingir o pico, pois o pico está sempre mais além, no infinito. O homem ocidental só alcança uma parte ínfima da vida espiritual. Ele só capta o provisório, nunca o definitivo. A morte para vocês é um acontecimento sem sentido. E se a morte não tem sentido, a vida também não tem, pois o progresso sem significado faz da vida um acontecimento sem significado. E quem diz isso não sou eu... é Max Weber, vosso filósofo do desencanto. Logo, a bomba da Índia vai trazer-vos uma grande paz interior...
E se o mundo acabar numa grande explosão?
‘‘O mundo acabará num gemido’’, como disse vosso poeta Eliot. E eu reencarnarei como uma águia branca, de longas asas, voando sobre as cinzas da humanidade...

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