BOM HUMOR PARA DAR E VENDER
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sábado, 06 de outubro de 2001
Rodrigo Teixeira<br> TV Press 
Ela parece ter encontrado seu habitat. Cláudia Jimenez sorri o tempo todo e mostra um bom humor aparentemente inabalável. A atriz é a primeira a assumir que era estressada e que dispensava um bom motivo para se alterar. Segundo ela, uma das responsáveis por essa nova fase é a personagem que interpreta em ''As Filhas da Mãe'', Dagmar, uma artista que se mete em todo tipo de confusão em busca de sucesso. Normalmente, Cláudia é avessa a novelas - fez uma ponta em ''Eu Prometo'', em 1983, e participou efetivamente de ''Torre de Babel'', em 1998. E admite que ter sido especialmente convidada por Silvio de Abreu para uma novela com o amigo Jorge Fernando na direção foi fundamental para ela embarcar na produção - inclusive porque a atriz acha que dificilmente convenceria num papel que fugisse do humor. ''O público sempre espera rir comigo. Por isso não me preocupei em participar desta novela, que é toda voltada para a comédia'', ressalta.
Outro motivo para a alegria da atriz é estar com a saúde em dia. Em setembro de 1999, Cláudia sofreu um infarto e recebeu cinco pontes de safena. Desde então, vem se esforçando para preservar os 86 quilos, 20 a menos que na época do infarto. Após quase dois anos da experiência traumática, ela afirma que finalmente está recuperada, embora tenha de manter o controle na alimentação e continuar com exercícios diários. ''Não paro de me exercitar. Foi o que salvou a minha vida'', acredita.
Cláudia não esconde o contentamento por formar par com mais um galã da tevê brasileira. No caso, Reynaldo Gianecchini. Ele é Ricardo Brandão, personagem com quem Dagmar vai acabar tendo um caso atrapalhado. É que os dois personagens vão protagonizar uma ''sitcom'' de sucesso na novela. Só que Dagmar vai se passar por homem para conseguir o papel. Com isso, Ricardo vai pensar que é gay, pois se sente atraído pelo colega de trabalho. ''Participar desta novela é uma verdadeira terapia'', jura.
O Silvio de Abreu sempre coloca você para contracenar com bonitões. Isso é combinado?
Pode parecer, mas eu não combino nada com ele. O Silvio me dá estas oportunidades porque gosta de mim. Porque um homem como o Gianecchini a gente não acha na esquina. Contracenar com belos homens é bom para a auto-estima de nós, gordinhas. Na verdade, o Silvio é um debochado. Ele pega um galã em alta no Brasil e bota para se apaixonar por uma gordinha, coisa que não acontece nunca. Só posso achar maravilhoso. Avisei à Marília Gabriela que a Vera Fischer não foi ameaça para ela, mas comigo ela tem de tomar cuidado... Já em ''Torre de Babel'' não foi o esperado. A Bina foi crescendo e chegou a ser disputada por Victor Fasano, Oscar Magrini e Ernani Moraes. Fiquei feliz porque não estava previsto na sinopse, pois a Bina era um papel menor.
Você acha que pode acontecer o mesmo em ''As Filhas da Mãe''?
Acho difícil, porque aqui só tem fera. ''Torre de Babel'' também tinha um grande elenco, mas não como o de ''As Filhas da Mãe''. Em ''Torre'' tinha núcleo de humor, que funcionava como o recreio da novela. Mas ''As Filhas'' é toda comédia. Uma espécie de chanchada moderna. E tem Regina Casé, Andréa Beltrão, Diogo Vilela, Fernandona, Cláudia Raia, que é uma palhaça, todos craques da comédia. Então acho que vai ser bem distribuído.
Ao reunir tantas estrelas, não é perigoso dar pouco destaque para todos?
Talvez para quem escreva, deve realmente ser difícil. Mas o Silvio já provou ser um grande autor. O fundamental também é que o Jorginho Fernando está tranquilo. E também, neste caso de ''As Filhas da Mãe'', todo mundo é consagrado na profissão. Estes problemas de ego acontecem normalmente quando em um programa tem uma pessoa muito famosa e outra querendo chegar lá. Pode causar inveja e tal. Mas neste elenco, não. Todo mundo já sabe o seu tamanho e não existe insegurança. Ninguém neste elenco precisa provar mais nada.
É difícil encontrar um ambiente sem estrelismo como este na televisão?
Não é difícil. Só houve uma vez que tive problemas com isso, que foi no ''Sai de Baixo''. Foi a única vez que não fui feliz em 22 anos de Globo. Lógico que a culpa também foi minha, pois não soube lidar com a situação. Hoje talvez fosse diferente, porque a gente amadurece. Eles me chamaram várias vezes para voltar ao ''Sai de Baixo'', mas não quis. Na quarta vez inclusive me ofereceram muito dinheiro. Fiquei balançada, mas mesmo assim não há dinheiro que pague cinco pontes de safena. Mudei muito depois que tive o infarto em 1999.
Em que, por exemplo?
Desde então decidi que só iria aceitar trabalhos que quisesse realmente. Então, estou dizendo não, custe o que custar, doa a quem doer. Mesmo que pareça maluquice. Muitos amigos e o pessoal da minha família ficaram espantados quando disse que não queria fazer o ''Sai de Baixo''. Mas eu é que sei, porque quem ficou no CTI com o esterno serrado ao meio fui eu. Não admito mais que ninguém diga o que é bom para mim. Na verdade, sempre soube, mas não tinha coragem de falar. Mas agora tenho, porque sei onde é que acaba este tipo de coisa se você passa dos limites: no hospital.
Você parece mais bem-humorada também...
E estou mesmo. Talvez porque agora tenho mais responsabilidade comigo mesma e tento preservar mais a minha saúde. Mas é lógico que quando estou na tensão pré-menstrual continuo mal-humorada. Claro que não suporto pessoas chatas, que invadem a privacidade da gente e que passam dos limites. Isso é normal.
Mas você aceitou voltar a fazer a ''Escolinha do Professor Raimundo'' antes de ''As Filhas da Mãe''. A Cacilda tinha mais a acrescentar do que a personagem do ''Sai de Baixo''?
Não é bem a Cacilda que tinha mais a dar. É porque na ''Escolinha'' me sentia bem mais querida e respeitada. O Chico Anysio, que considero um dos maiores comediantes do mundo, me admira e ri comigo. Isso é algo que sempre vai alimentar meu ego e que me deixa forte como comediante e profissional. E a Cacilda foi uma personagem mais popular que a Edileusa.
Você só viveu papéis cômicos na tevê. Não tem vontade de fazer algo mais dramático?
Já fiz no teatro a ''Valsa Nº 6'', do Nelson Rodrigues, em 1982, com direção da Sura Berditchevsky. Na época não fazia quase nada de tevê e poucas pessoas me conheciam. Era um monólogo bem dramático. Mas realmente o meu maior canal é o humor e a comédia. Chego a arriscar que hoje em dia, principalmente em televisão, se for fazer uma coisa dramática, acho que não vai ter muito crédito. Não por ter medo de cair na caricatura, porque me considero uma boa atriz. Mas acredito que o público sempre espera rir comigo. Então acho que na tevê seria difícil convencer, mas no teatro até faria. Inclusive não tenho a menor preocupação em ficar estigmatizada como comediante. Para mim é um orgulho.
Em ''As Filhas da Mãe'' sua personagem não tem bordões. É mais difícil conquistar o público sem este subterfúgio?
O público gosta de alguém que o prenda. Não importa se está falando bordão, mas o que ele está fazendo. Aquele que faz o espectador ficar ali é quem considero um bom comediante. Seja qualquer história que ele esteja contando. Agora, lógico que um texto bem escrito ajuda muito ao comediante, como é o caso agora desta novela do Silvio. Na verdade, todo ator é meio refém do que escrevem para ele. Por isso fico mal-acostumada nas novelas do Silvio, porque dou os meus palpites no texto. Então, não tenho do que reclamar. Mas claro que o povão gosta desta coisa de já saber o que vai escutar.
Sua personagem vai se passar por homem na novela, o que não deixa de ser um clichê do humor. Você não tem medo que fique pastelão demais?
Me preocupo em ser engraçada e divertir o espectador. Inclusive, quando o Silvio me falou desta loucura da personagem, fiquei mais animada ainda para fazer a novela. Vai ser divertido o Giane pensar que é gay só porque está apaixonado por um homem que na verdade sou eu vestida de homem. Por isso, assisti a filmes que têm histórias parecidas à da minha personagem, como ''Yentl'', com Barbra Streisand, ''Tootsie'', com Dustin Hoffman, e ''Vítor ou Vitória?'', com Julie Andrews. Vou pelo mesmo caminho. Mas todo comediante tem a obrigação de encerrar uma piada, mesmo já conhecida, com uma nova energia. E é isso que vou tentar fazer.


