Bom humor em cena
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2002
Renata Petrocelli<br> TV Press 
Regina Maria Dourado tem vivido 24 horas por dia para ''Esperança''. Em parte, devido ao destaque na trama do núcleo da pensão de sua personagem, Mariúsa. Por lá circulam personagens centrais, como Maria, Genaro e Toni, vividos por Priscilla Fantin, Raul Cortez e Reinaldo Gianecchini. Mas, sobretudo, em função do atraso no ritmo das gravações da novela. Moradora de Salvador, a atriz passa a semana num hotel no Rio de Janeiro, pois nunca consegue saber antes das 23 horas se grava ou não no dia seguinte. ''A vida pessoal é nenhuma. O descanso é nenhum'', lamenta, para logo destacar, às gargalhadas, a ''outra face'' do problema. ''O imediatismo é bom. O que gravo hoje, vai ao ar amanhã. Assim, tenho mais facilidade para corrigir erros ou manter acertos'', contemporiza.
A simpatia e o bom humor são marcas registradas nos 35 anos de carreira de Regina. Baiana, ela começou a trabalhar na tevê em 1978, quando interpretou a Nanci, de ''Pai Herói''. De lá para cá, fez quase 20 novelas e diversos filmes, sempre no eixo Rio-São Paulo. Mas nunca deixou de morar em Salvador. Atualmente, ela visita o namorado, a mãe e o filho sempre que possível. ''Às vezes, chego à uma da manhã de domingo e volto às quatro da tarde. Mas dá tempo de fazer uma boa comilança para nós'', conforma-se. Cozinheira de mão cheia, a atriz é autora de ''Quero Comer - Dores e Delícias do Cozinheiro Diletante'', da Ediouro. No livro, ela traça o perfil de 17 personagens, a partir dos ''comportamentos culinários'' de quem cozinha e de quem come. ''Ninguém pensa nisso. Só se fala da comida'', justifica a atenta gourmet.
Em ''Esperança'', Mariúsa também passa longas horas na cozinha. Seus quitutes conquistam até o mais reservado dos hóspedes, assim como a atenção e a gentileza que dispensa a todos. Na opinião de Regina, a pensão exerce uma função aglutinadora na trama. ''É onde as pessoas se encontram. E é ali que elas resolvem um pouco as suas vidas'', opina. A atriz tem explicação até para o papel de ''mãezona'' que Mariúsa cumpre junto aos hóspedes. Segundo ela, a relação não poderia ser diferente. ''É uma mulher sozinha, que quer companhia. E recebe as pessoas na casa dela'', justifica, relevando até as pequenas intromissões da simpática anfitriã, que acaba opinando na vida de todos.
Embora acredite que este seja um dos motivos do crescimento da personagem, Regina faz questão de lembrar que o fato é uma constante em sua carreira. ''Já tive vários personagens pequenos que cresceram nas histórias'', gaba-se, citando a Lucineide, de ''Explode Coração''. A atriz garante que o gostinho de satisfação não chega a ser maior que o trabalho da construção de um personagem periférico. ''O protagonista já vem com um esqueleto pronto. Neste caso, eu tinha, no máximo, um sêmen'', compara, rindo de si mesma. Ela lembra que a sinopse definia Mariúsa apenas como uma dona de pensão vinda da Bahia. ''A partir disso, tive de criar uma pessoa'', valoriza.
Não satisfeita, Regina criou também um modo de falar que garante momentos divertidos à novela. Ao sotaque tipicamente nordestino de Mariúsa, ela mescla palavras em italiano, devidamente transformadas pelo tom regional. A atriz garante, no entanto, que tem um pequeno papel na inusitada mistura. Segundo ela, foi o próprio autor, Benedito Ruy Barbosa, quem começou a colocar as expressões no texto de Mariúsa, à medida em que a pensão se enchia de imigrantes. ''Minha contribuição foi 'aportuguesar' e 'baianizar' as palavras'', revela, aproveitando a deixa para elogiar uma colega. ''Inteligente foi a Priscilla Fantin, que incorporou as expressões e o sotaque da Mariúsa ao português que a Maria aprende com ela'', compara.
Sobre um possível romance entre Mariúsa e Genaro, que aumentaria ainda mais o peso da personagem na trama, Regina não dá muitas pistas. Provavelmente porque não as tenha, realmente. Mesmo assim, imprime à personagem uma indisfarçável admiração pelo italiano. ''É óbvio que existe uma simpatia entre os dois. Como ela é mais atirada, demonstra mais do que ele'', justifica, citando as razões da personagem. ''Ele é muito interessante, com aquela coisa meio ranzinza. E charmosérrimo!'', conclui, com o ar maroto de Mariúsa.


