Bom humor antes do primeiro show
São Paulo, 09 (AE) - Terrível começar uma entrevista com uma gafe. No livro "Up-Tight - The Story of The Velvet Underground", os autores Victor Bockris e Gerard Malanga dizem que John Cale nasceu em 5 de dezembro de 1940. Ou seja: teria feito 59 anos no domingo. "Parabéns por quê? Meu aniversário é só em março", desmente John Cale, em entrevista à Agência Estado duas horas antes de seu primeiro show no Brasil, nas coxias do palco do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Ainda assim, ele agradece o presente, o disco novo de "Tom Zé" (Vaia de Bêbado não Vale), cuja música demonstra conhecer bem. "Adoro Tom Zé", ele diz. "Em março, você pode me dar outro disco dele", brinca, embora não seja exatamente um sujeito bem-humorado. Parece levemente entediado ou ressabiado.
Ainda assim, ele não se furta a responder nenhuma questão. Em 1963, quando ainda estudava no Goldsmiths College de Londres, sua maior influência confessa era John Cage, o autor das teorias do acaso e da indeterminação na música. Mas ele não pensa mais o mesmo. Cage, diz, não tem mais importância neste fim de século. "Eu penso que John Cage esteve envolvido com uma perspectiva européia de música, de fazê-las para as salas de concerto", afirmou. "O que significa hoje concertos ridículos, já que as salas de concerto não se coadunam com a sociedade do barulho em que vivemos, a música está em todo lugar e a noção de música erudita está em xeque", disse.
Ele mesmo quer se situar entre as expressões populares e eruditas, mas sem ser obrigado a escolher nenhuma delas. "Eu posso soar como rock, ou como clássico, mas prefiro pensar que busco uma música criativa, sem me ater a nenhuma expressão em particular", diz. No seu disco mais recente, "Walking on Locusts", no entanto, ele parece ter voltado ao rock e ao pop. "São duas canções e isso significa apenas que eu conheço a linguagem, não quero ilustrar uma opção em particular".
Atento, gosta do punk eletrônico do Prodigy e das texturas e misturas do Portishead. "O Prodigy tem uma maneira de pensar e fazer soar a música", destaca. "E eu também gosto das estranhas combinações do Portishead", diz. Descartou com firmeza um novo retorno do Velvet Underground. "É claro que não é possível", afirmou. Mas, em 1995, ele promoveu um breve retorno do grupo. "Sim, mas em 1995 eram quatro de nós, agora somos apenas três e não tenho o menor interesse", afirmou. A baixa mais recente na formação original do grupo foi a do guitarrista Sterling Morrison (Holmes Sterling Morrison, nascido em 29 de agosto de 1942, em Long Island).
As idéias de John Cale mudaram bastante desde sua juventude. Quando era apenas um estudante, durante um recital de piano na Guildahll School of Music, onde estava estudando teoria e composição, atacou e quebrou o piano. Em 1963, sob a proteção de Aaron Copland, ele conseguiu uma bolsa de Leonard Bernstein e foi a Nova York estudar composição no Eastman Conservatory, o famoso Tanglewood de Lenox, Massachusetts. Mas Copland rapidamente decidiu tirá-lo do conservatório. "Ele poderia quebrar mais pianos", disse o compositor.
Então, Cale foi para Nova York e encontrou seu segundo grande parceiro, La Monte Young, compositor de vanguarda da época. Juntos, fundaram The Dream Syndicate, que consistia nos sons amplificados de violino e viola. Cale tocava viola. Ele trocou as cordas do instrumento pelas de guitarra. O conceito do grupo consistia em sustentar notas num show durante duas horas consecutivas. Mas La Monte Young, um papa da vanguarda, também não é mais uma referência.
"Nós trabalhamos duro no passado, mas, infelizmente, ele não está mais interessado em trabalhar em colaboração", diz Cale. "Ele veio uma vez, mas achei também que suas idéias estavam um pouco fora da escala que eu queria para aquele disco específico", afirma. "Mas eu considero que ele faz um trabalho baseado em idéias fortes e num grande senso de independência". Ele crê que há ainda alguns músicos fazendo trabalhos em busca de um sentido para a vanguarda no fim do século, mas que vê mais resultados teóricos. "Acho que, desde o princípio, a teoria vem sendo a base", ele diz. "Isso também é importante, mas não é efetivo!", considera.
Realmente, é uma mudança radical de visão. Aos 24 anos, ele integrou um grupo de pianistas que executou a peça Vexations
de Erik Satie, que tinha 19 horas de duração. Foi ele que avaliou as condições de compositor de Lou Reed. Segundo contam Gerard Malanga e Victor Brockis em seu livro, Cale viu as coisas que Reed tinha publicado em uma editora nova-iorquina e não viu muito futuro no parceiro. Mas aí Reed lhe mostrou as coisas que a editora recusava. Entre elas, estava a letra de "Heroin". "Aquilo me nocauteou", afirma. "As palavras e a música era cruas e devastadoras".
Parceiros na comunidade artística de "Lower East Side de Manhattan", eles criaram a lendária banda The Velvet Underground. Na época, Cale tocava teclados, baixo e viola elétrica. Deixou a banda em 1968 para uma carreira-solo. Nos anos 70, ele trabalhou como produtor e consultor para a Warner e a Elektra Records. Remixou (pasme!) discos de Barbra Streisand e Paul Revere and The Raiders. Nos seus discos-solos, passeou pelo pop (Paris 1919, com Lowell George), hard rock (Fear, uma das músicas que faz parte do seu show), minimalismo (Church of Anthrax, com La Monte Young e Terry Riley), som orquestral (The Academy in Peril) e punk rock (Sabotage).
Trabalhou com Brian Eno, Nick Drake e fez trilhas para filmes de Warhol e de Roger Corman. Produziu também nos anos 80 gente como Happy Mondays e fez a trilha de "Totalmente Selvagem", de Jonathan Demme. O disco mais recente, "Walking on Locusts", não parece ter pegado muito bem. Tanto que nem aparece no show. Tem, no entanto, uma bela homenagem ao amigo Sterling Morrison, na faixa "Some Friends". (J.M.)





