Depois de ''Harry Potter'', a bola da vez é ''Monstros e Companhia'', espertíssima animação computadorizada da casa Disney entrando neste final de semana apenas em pré-estréia em poucas salas. Em seguida, já a partir da próxima sexta, ''Xuxa e os Duendes'' (espertamente no vácuo da onda esotérica de Hogwarts) chega a cerca de 300 salas do País. E ''O Senhor dos Anéis'', outro pretendente a blockbuster planetário, está apontado para inaugurar 2002, a partir do Ano Novo. Diante desse universo de fantasia ilimitada, o exibidor se rende aos apelos da caixa registradora e segue a onda, obviamente apostando no certo mas sempre de olho naquele produto que possa surgir contra a corrente. Neste sentido, ''Vida Bandida'' (veja a programação de cinema na página 5) é estréia estratégica, especificamente direcionada aos primeiros sintomas de saciedade manifestados pelas legiões de consumidores de ''Harry Potter''.
Hollywood precisa aprender de uma vez por todas: a grande, imensa maioria dos filmes não tem que ter duas horas ou mais de duração. Se uns 20 minutos de ''Vida Bandida'' tivessem ficado na mesa de corte, esta comédia/aventura criminal resultaria em trabalho conciso, mais engraçado e muito mais agradável. Assim como está é ainda desfrutável, mas os débeis momentos de auto-indulgência a entremear os segmentos de comicidade são francamente aborrecidos. O que é uma pena, porque o argumento parte de uma premissa muito simples e muito esperta.
Joe (Bruce Willis) e Terry (Billy Bob Thornton) são assaltantes de banco que fogem juntos de uma prisão do Oregon. A idéia: ir costurando um caminho alternativo de rentáveis roubos até a California, em busca de bem alimentada aposentadoria além fronteiras. O método: ir à casa de gerentes de bancos de pequenas cidades, passar a noite com eles e na manhã seguinte, antes do expediente, ir ao estabelecimento e limpar o cofre. Para isso contam com a ajuda de Harvey, um motorista candidato a stuntman (Troy Garrity, o filho de Jane Fonda cumprindo uma espécie de residência artística). Logo essa rotina de bem-sucedidos lances os coloca nas primeiras páginas, em especial sob o foco de um repórter sensacionalista (Bobby Slayton): eles são os Sleepover Bandits. A primeira complicação: no caminho, a frustrada dona-de-casa Kate (Cate Blanchett) se une e se apaixona pela dupla (sendo correspondida com paixão), joga mais combustível na polêmica monogamia cultural versus poligamia biológica e ameaça comprometer a sólida relação de amizade e profissional entre Joe e Terry. A segunda complicação: polícia e mídia acham que a mulher foi sequestrada e se tornou refém, uma enorme caçada tem início.
Há um problema a considerar no engraçado roteiro de Harley Peyton: apesar de evidências cristalinas, transparentes mesmo, não são assumidas criticamente referências ou reminiscências de títulos clássicos como ''Bonnie and Clyde - Uma Rajada de Balas'', de Arthur Penn, ou ''Aconteceu Naquela Noite'', de Frank Capra, ou ''Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois'', de François Truffaut, ou ainda ''Um Estranho Casal'', de Gene Sacks. O que afinal sustenta ''Vida Bandida'' é o dom de humanizar personagens e situações que o diretor Barry Levinson sempre leva a tiracolo. Mas isso não chega a surpreender: admirável é a concentração de talento encontrada no trio central de intérpretes. Impulsivo, carismático, o ladrão Joe é levado a sério como nunca por Bruce Willis. Talvez por causa da proximidade da Kate de Cate Blanchett, uma das mais consistentes e convincentes atrizes da atualidade, caso raro de habilidades camaleônicas. Mas o neurótico, hipocondríaco, fóbico, confuso Terry de Billy Bob Thornton é quem fica com a parte do leão.

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