Com 90 por cento de alunos bolsistas, o Ballet Bolshoi de Joinville mantém a disciplina que caracteriza a escola russa para formar bailarinos para o próximo século
O que é ser um bailarino profissional? É treinar todos os dias durante horas, ser atleta e artista, saber expressar sentimentos, emocionar, ter aptidão física e artística, e ainda vocação. Saber relacionar-se com culturas diferentes, ter conhecimento de dança mundial, estudar línguas, ser independente e saber respeitar os outros. Parece muita coisa para meninos e meninas de oito a onze anos, mas os alunos do Ballet Bolshoi, em Joinville (SC), estão com a lição na ponta da língua, ou melhor, da sapatilha.
Única escola-filial de balé clássico fora da Rússia, o Bolshoi do Brasil prepara-se para entrar no novo milênio com uma segunda turma de alunos. O prazo de inscrições para a pré-seleção termina amanhã. A escola está atualmente com 180 alunos no Curso de Formação e abre mais quatro turmas, de 20 alunos cada.
A concorrência é tão grande que há famílias inteiras dispostas a mudar para Joinville para que os filhos possam estudar dança clássica no Bolshoi. No primeiro ano de atividades, o Bolshoi teve inscritos cerca de 2 mil jovens, 515 foram pré-selecionados. A concorrência foi de 43 candidatos por vaga, o que coloca a escola entre as mais concorridas do País. Em Moscou, na mesma faixa etária entre oito e 11 anos, há 6,5 mil alunos.
Entre os alunos brasileiros, 90% são bolsistas integrais. São crianças que estudam em escolas municipais de Joinville e que recebem toda a estrutura para poder dedicar-se ao balé sem prejudicar os estudos. Os outros 54 alunos não-bolsistas pagam R$ 300,00 por mês. Quatro grandes empresas nacionais participam do orçamento da escola com R$ 600,00 para cada um dos 126 alunos bolsistas, por intermédio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura.
O que chama a atenção de quem visita o Centreventos Cau Hansen, sede da escola, é a disciplina, beleza e estrutura oferecida aos alunos. Como em Moscou, o Bolshoi de Joinville é extremamente bem organizado e exige a mesma postura disciplinar dos pequenos catarinenses. ‘‘Os critérios de seleção são os mesmos do Ballet Bolshoi de Moscou’’ – confirma a coordenadora artística Maristela Teixeira.
A rotina dos alunos é a mesma dos colegas do outro lado do mundo e que já têm 225 anos de tradição. Os jovens entram e saem da escola uniformizados, têm um armário individual para deixar as malhas e sapatilhas, recebem um lanche no intervalo, assistem a vídeos de balé em vez de desenhos animados. ‘‘Ser um bailarino profissional da escola Bolshoi exige essa postura, tando que os próprios alunos discutiram as regras de comportamento dentro da escola e impuseram-se punições mais rígidas das que haviam sido apresentadas’’, conta Maristela.
Nos corredores, escadas, lanchonete, tudo lembra balé clássico. As salas de aulas têm nomes de estrelas do Bolshoi como Galina Ulanova, Asaf Messerer, Galina Ivanova, Vazlav Nishinsky e Anna Pavlova. Dois dos cinco professores são russos. Há ainda um pianista russo e outros cinco brasileiros. Todas as aulas são acompanhadas ao piano.
Para os próximos anos, as escolas Bolshoi pretendem oferecer intercâmbios entre os alunos e professores russos e brasileiros. Os bailarinos daqui terão oportunidade de ficar dois anos em Moscou ao final do curso de Formação. Os alunos de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento também irão ter aulas com a companhia em Moscou.

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