MOLHO
Bolinhos de chuva
Inverno é bom também para fazer esse ritual que se repete de Norte a Sul do Brasil, seja o ‘‘chácombolo’’ dos cuiabanos, (assim, tudo junto mesmo) e as tapiocas dos Nortes, que nas chuvas escaldantes de seu inverno os confortam. Mas nós, sulinos e misturados de todas as raças, fazemos esses bolinhos de chuva que as avós sabem fazer intuitivamente, sem receita, para deleite dos netos. Essas lembranças ficam indeléveis. Tatuagens gustativas em nossa mémoria, um perfume na alma. E enquanto um pouco de criança ainda existir em nós, sentiremos saudades desses prazeres simples e sem preço de uma tarde chuvosa. Já me senti literalmente no aconchego da Arca de Noé, eu sendo mais um do bichos, claro. A raposa com seus filhotes, comendo bolinhos.
Os meus bolinhos, integrais, são simples e baratos, levam apenas farinha de trigo integral, água fervente e uma tigela funda e redonda. Faça um buraco na farinha e jogue a água no meio. Comece misturando a farinha a partir da poça, com batedeira manual. O resultado deve ser um mingau grosso, que você vai ter que esperar que esfrie completamente. Levante, olhe pela janela, chove torrencialmente para todo o dia. Já faça a massa. Estando fria, pingue as colheradas no óleo fervente. Vão se formar pequenos zepelins, leves e comestíveis. Quase filhoses, esses doces portugueses, que são fazedores de bolinhos como ninguém.
Gosto de molhá-los num pratinho com mel levemente polvilhados de canela, com chá de mate, numa xícara sardenta de bolinhas vermelhas, como as crianças gostam. Ou polvilhe-os com açúcar e a imprescindível canela. Mas não todos, guarde alguns para o jantar, e salgue-os. Pãezinhos fritos a ser comidos com sopa. Calóricos, um pouco, mas varredores de impurezas e muito digestivos. Use óleo de soja novo (sem ter sido requentado). Se quiser, essa mesma massa, um pouco mais mole, vira excelentes e nada engordativas panquecas. O recheio é por sua conta. Com queijo fica muito bom.
Como bolinhos são quase bombinhas surpresas que explodem no óleo, as crianças os amam. Para as avós de segundo milênio que logo seremos ou somos, vale não esquecer o molde que trazemos há milênios, de fazedoras de bolinhos em dias de chuva. E para as jovens camponesas, que ainda criam seus filhos e gatos, lambuzem-se todos juntos. A festa do bolinho particular.

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