Boleiros faz a estréia na nova casa
O diretor Ugo Giorgetti começa a receber os louros da vitória antes mesmo do seu último filme, Boleiros - escolhido para abrir a programação da Cinemateca de Curitiba -, chegar às telas. Estão acontecendo pré-estréias - o suficiente para a crítica rasgar-se em elogios. Curitiba e São Paulo poderão acompanhar as aventuras e desventuras de um grupo de amantes do futebol a partir de sexta-feira.
Ugo Giorgetti conversou com a Folha Dois sobre seu trabalho: Coloco na tela o retrato humano. É um filme sobre seres humanos, disse. Ele explicou que criou Boleiros por uma razão muito simples: como é louco por futebol desde criança.
Autor do roteiro, colocou numa mesa de bar - desses típicos bares paulistanos - um grupo de boleiros, profissionais e ex-profissionais de futebol. Eles estão sempre ali para falar do que mais gostam: comentar os últimos jogos, atuação dos atletas, dos times, juízes e relembrar fatos que julgam marcantes. Essas conversas, pesadas de inevitável melancolia, apesar dos lances humorísticos, dão origem aos episódios.
As histórias se sucedem: tem o jogador metido a garanhão que faz de tudo para safar da concentração e atrair uma hóspede do mesmo hotel onde está seu time; o juiz corrupto que se empenha em comandar o placar; o jogador que anuncia a venda de troféus e medalhas por estar na miséria; o craque mirim que se envolve com marginais; a alegria fugaz do autor de um gol inesquecível.
A brevidade está presente no filme, como uma das leis imutáveis da vida. Mas assim é a carreira futebolística: Ela é muito curta, observou Giorgetti. Os personagens que estão em cena, seja olhando com saudade o gramado ou vivendo o êxtase do momento de glória são por igual vencedores. Eles ganham mesmo na derrota. O jogador de futebol é sempre vitorioso.
O diretor evita fixar Boleiros dentro de uma imagem como se o filme fosse somente a reflexão sobre o passado. Não é por aí. São seis episódios, assim como tem melancolia, também tem humor, frisou. Sua intenção quando desenvolve um projeto é levar à tela o retrato humano. Enfim, o homem é a única coisa sobre a qual vale a pena a gente se debruçar.
Ugo Giorgetti não é o tipo do cineasta que sonha em empunhar troféus, apesar de ter vencido o Festival de Gramado com Festa, em 1988. Prefere comparecer com seus trabalhos em outros festivais - os não-competitivos -, embora reconheça que esses eventos sejam vitrines importantíssimas.
Para realizar Boleiros houve captação de recursos das leis de incentivo à cultura de âmbito federal e municipal. Não deu para nadar em dinheiro, mas foi o suficiente para que em 60 dias ele fosse rodado, envolvendo 104 atores, além da equipe técnica. Tive as condições necessárias para rodá-lo. Se não está bem, a culpa é exclusivamente minha, afirmou. Melhor não sei fazer.
Autor de Sábado (1995), outro sucesso de público e crítica, Giorgetti sabe o que faz. Estamos precisando urgentemente de bons filmes. A cinematografia se faz com filmes e não com discursos. Quando conseguirmos encher a tela de coisas boas, o Brasil vai acontecer. As coisas se reduzem à simplicidade única: ter filmes que valham a pena. (Z.C.L.)





