WILMAR KLEIN
Coincidindo com o lançamento em DVD do segundo e melhor longa-metragem de Peter Bogdanovich, ‘‘A Última Sessão de Cinema’’ (‘‘The Last Picture Show’’, 1971), chegou às livrarias do País ‘‘Afinal, Quem Faz os Filmes’’ (Companhia das Letras, 984 páginas), uma excelente coleção de entrevistas que o diretor norte-americano realizou com alguns dos maiores mestres da sétima arte. Gente como John ford, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, Howard Hawks, Joseph von Sternberg, George Cukor, entre outros. Bogdanovich registrou as entrevistas num velho gravador de rolo, na época em que morava em Los Angeles e ganhava a vida escrevendo matérias sobre cinema para revistas e jornais. Isso nos anos 60, antes que o ‘‘rei dos filmes B’’ de Hollywood, Roger Corman, lhe desse a chance de dirigir ‘‘Na Mira da Morte’’ (‘‘Targets’’, 1968), estrelado por Boris Karloff. Porém, mesmo após sua estréia por trás das câmeras, nunca deixou de escrever sobre cinema, tendo produzido ao longo dos anos livros sobre Ford, Lang, Welles. Atualmente, prepara ‘‘Who the Devil’s in It’’, coletânea de entrevistas com atores cinematográficos, e a íntegra das sessões de entrevistas com Hitchcock, das quais a obra agora lançada no Brasil fornece uma boa amostra.
‘‘Afinal, Quem Faz os Filmes’’ é um testemunho de amor e devoção ao cinema desdobrado em 16 entrevistas nas quais Bogdanovich exercita a sua inesgotável curiosidade sobre os bastidores de uma Hollywood que, infelizmente, hoje não mais existe. ‘‘Todos os grandes filmes já foram feitos’’, declarou uma vez o diretor de ‘‘A Última Sessão...’’ e ‘‘Lua de Papel’’. E a qualidade do time de cineastas sobre os quais descarrega a sua bateria de perguntas só reforça essa declaração. Felizmente, a maioria deles mostrou-se bastante generosa (Hitchcock em especial) e soube satisfazer a curiosidade do entrevistador (e, por extensão, a dos cinéfilos em geral, para os quais o livro é um ‘‘banquete’’ irresistível).
Valorizado por textos de apresentação sobre a vida e a obra de cada um dos diretores enfocados, ‘‘Afinal, Quem Faz os Filmes’’ tem o mérito adicional de não se limitar às unanimidades, dedicando atenção a cineastas talentosos que, no entanto, não desfrutam do reconhecimento que lhes é devido. Caso de Edgar G. Ulmer (1904-1972) - injustamente considerado um cineasta menor - Frank Tashlin (1913-1972), Joseph H. Lewis e mesmo Raoul Walsh (1887-1980) e Don Siegel (1912-1991), que, embora respeitados pela crítica, não costumam frequentar a lista dos ‘‘grandes’’ de Hollywood. De quebra, o próprio Bogdanovich faz, no início do livro, um balanço de sua própria filmografia. Uma filmografia irregular, na qual êxitos, fracassos e equívocos se alternam, sem que tais oscilações façam diminuir a incontestável paixão pelo cinema, sensível em cada página dessa alentada e altamente recomendável coleção de entrevistas.
Donato: atemporal
A exemplo do baiano João Gilberto, o acreano João Donato, outro dos pilares da Bossa Nova, não se renova e não surpreende. Duas constatações (geralmente indissociáveis) que, aplicadas a Donato, em nada desmerecem o valor de sua obra. ‘‘Amazonas’’, CD de João Donato Trio produzido nos Estados Unidos e agora lançado no Brasil pelo pequeno selo Elephant Records, revisita 18 canções do pianista e compositor - entre elas, as clássicas ‘‘Bananeira’’ e ‘‘A R㒒 - que demonstram que a música dos grandes autores - eruditos ou populares - é atemporal. Donato, a cada um de seus discos bissextos, depura a sua obra, do mesmo modo que um poeta perfeccionista ‘‘lima’’ incansavelmente os seus versos. Seus parceiros nessa tarefa são os experientes Claudio Sion e Jorge Helder - responsáveis, respectivamente, pela bateria e pelo baixo que, acrescidos ao piano do titular do trio, obtém um grau de sofisticação e densidade que transcendem a simplicidade da formação. Um CD que não surpreende porque de Donato nos acostumamos a esperar composições e interpretações superlativas. E o velho bossa-novista da primeira hora nunca frustra uma tal expectativa. Ouça ‘‘Amazonas’’ e confirme.

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