Boêmio, não ligava para a fama
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domingo, 16 de janeiro de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 16 (AE) - Durante muito tempo (e ainda há quem sustente a hipótese), correu à boca pequena que Nélson Cavaquinho seria o verdadeiro autor do samba "Diz Que Fui por aí", grande sucesso de Zé Kéti, gravado por Nara Leão em seu primeiro disco.
A troca de autoria teria sido resultado de uma barganha qualquer entre os dois compositores, uma aposta de fim de noite, coisa de boêmios. Nada ficou provado, os dois protagonistas estão mortos e não há porque desconfiar do talento de Zé Kéti. Ele era brilhante. Poderia ter escrito essa obra-prima, como escreveu tantas outras.
O que alimenta a dúvida é o fato de que o retrato pintado na letra de "Diz Que Fui por aí" ser muito mais parecido com Nélson do que com Zé: "Se alguém perguntar por mim/ Diz que fui por aí/ Levando um violão debaixo do braço/ Em qualquer esquina eu paro/ Em qualquer botequim eu entro/ E se houver motivo/ É mais um samba que eu faço/ Se quiserem saber/ Se eu volto, diga que sim/ Mas só depois que a saudade se afastar de mim." Nélson puro. Não poderia ser mais fiel.
"Tenho o violão para me acompanhar, tenho muitos amigos
eu sou popular", continua a letra. Pode ter sido homenagem de Zé Kéti ao velho amigo. O fato é que Nélson varava as madrugadas
explorava todos os botequins, amanhecia na rua com o violão debaixo do braço. Tinha muitos amigos - nem todos tão amigos, assim - e era popular. Não é todo dia que o boêmio da madrugada vê um gênio cruzar o umbral do boteco.
Nélson cruzava. Entrava, bebia, comia uma coisinha, resolvia mudar de bar. Havia sempre um que o acompanhasse. Andava a pé, se fosse o caso, não se incomodava. No novo bar, era outra vez centro da roda, da admiração dos homens, do carinho das mulheres.
Dessa forma, Nélson Cavaquinho fez muitos "amigos". Vendeu muita música para comer e beber, deu outras a pessoas com quem simpatizava. Não dava muita bola para a coisa da autoria. Era vaidoso, como qualquer artista que sabe de seu gênio e o vê reconhecido, mas apenas pela capacidade de compor maravilhas. Uma vez compostas, pertenciam ao mundo.
Credenciam-se numerosos companheiros de noitada de Nélson Cavaquinho, quase todos falsos companheiros. Ele andava com anônimos, com quem encontrasse. Não tinha roteiro fixo, não era homem de lugares tradicionais. Andava pela noite, um boêmio em tom maior. Tocava violão de maneira esquisita, tosca, usando apenas dois dedos da mão direita para ferir as cordas. O violão soava rouco, sujo, som trastejado - acontece quando as cordas são mal pressionadas contra os trastes, aqueles ferrinhos que dividem longitudinalmente o braço do instrumento.
O violão, que encantava Tom Jobim, era como a voz, roufenha, que fazia a melodia surgir áspera. No entanto pungente: a beleza das composições de Nélson Cavaquinho impunha-se, densa, de impacto forte, repentina, surpreendente.
"Sempre só/ Eu vivo procurando alguém/ Que sofra como eu também/ Mas não consigo achar ninguém", canta, em "Luz Negra", uma das músicas mais tristes, mais dolorosas, mais sofridas de qualquer música popular. Nélson Cavaquinho parecia viver essa letra, em seu roteiro dispersivo.
Não era, entretanto, um homem triste. Suas rugas despertavam ternura, seu sorriso era luminoso. Sua inteligência generosa parecia fazer mais inteligentes os que o cercavam.
Foi um dos personagens mais originais da cultura popular brasileira. Sua obra é rigorosamente genial, fundadora, com paralelo somente na de Cartola. Estima-se que tenha composto mais de 500 sambas. Muitos estão irremediavelmente perdidos com o vôo final do anjo torto.


