Pode-se dizer que ele está um senhor. Um comportado senhor de 55 anos de idade que, quando se apresenta, usa apenas um discreto batom nos lábios e um fino traço de delineador em volta dos olhos. E olhe lá, hein! Ney Matogrosso não é mais aquele. Ah, não é mesmo! A perfomance provocativa (viadagem, para alguns) de outrora está devidamente contida para que o intérprete (e que intérprete, diga-se de passagem) se sobressaia. A fase franga e a atual sobriedade interpretativa, entretanto, estão lado a lado num disco que comemora os 25 anos (já?) de Ney de Souza Pereira ou, simplesmente, Ney Matogrosso.
‘‘Vinte e Cinco’’ (Polygram) é uma coletânea de 28 músicas espalhadas em dois CDs e que foram recolhidas desde os tempos dos Secos & Molhados. São fonogramas originais, com exceção de ‘‘América do Sul’’ (Paulo Machado), ‘‘Cubanakan’’ (Moises Simon-Sauvat et Chamfleury com versão de Romeu Nunes), ‘‘Bandido Corazon’’ (Rita Lee), ‘‘Vira’’ (Luli-Lucina) e ‘‘Destino de Aventureiro’’ (Eduardo Dusek-Luiz Carlos Goes) que foram regravadas e mixadas com a direção do produtor Mazzola.
A novidade fica por conta da inclusão de ‘‘Yolanda’’ (Pablo Milanes, com versão de Chico Buarque) que deveria ter entrado em ‘‘Um Brasileiro’’, disco de 96 em que Ney Matogrosso canta apenas músicas de Chico Buarque. Em vez das costumeiras letras, o encarte traz fotos maravilhosas das mais diferentes fases do cantor. A capa, meio sem graça, traz a cara de Ney maquiada a la Secos & Molhados.
O disco é um verdadeiro passeio musical na carreira desse sujeito que, com irreverência e talento, construiu uma das mais dignas carreiras artísticas. O repertório é bem dosado - vai da era mais jurássica (‘‘Sangue Latino’’, de João Ricardo e Paulinho Mendonça), passa pela fase excêntrica (‘‘Bandoleiro’’, de Luli e Lucina), revisita o romantismo singelo (‘‘Falando de Amor’’, de Tom Jobim e ‘‘Tanto Amor’’, de Chico Buarque), recorda o período comercial (‘‘Homem com H’’, de Antonio Barros; e‘‘Balada do Louco’’, de Arnaldo Baptista-Rita Lee), rememora a curta fase pop (‘‘Pro Dia Nascer Feliz’’, de Frejat e Cazuza) e descamba, finalmente, na atual sofisticação sonora (‘‘Amendoim Torradinho’’, de Henrique Beltrão; e ‘‘Retrato em Branco e Preto’’, de Tom Jobim e Chico Buarque).
No meio disso tudo, algumas belas canções que passaram despercebidas como ‘‘Mal Necessário’’ (Mauro Kwitko) e ‘‘Cobra Manaus’’ (Eduardo Dusek-Luiz Carlos Góes). Claro, há outras músicas expressivas do cancioneiro de Ney que ficaram de fora, como ‘‘Seu Tipo’’ (Eduardo Dusek-Luiz Carlos Góes), ‘‘Amor Objeto’’ (Roberto de Carvalho-Rita Lee) e ‘‘Pra Não Morrer de Tristeza (João Silva- K.Boclinho), por exemplo. Mas a escolha foi do próprio Ney, daí...
Entretanto, é impossível entender como um intérprete da importância de Ney Matogrosso comemore um quarto de século de carreira apenas com um disco de coletâneas. Faltou boa vontade de Ney ou da gravadora em colocar no mercado um trabalho marcante, inédito ou mesmo regravações para mostrar o quanto o cantor aprimorou seu canto.
Além do mais, ‘‘Vinte e Cinco’’ foi lançado às vésperas de 97 e, sendo assim, por pouco não poderia ser chamado de ‘‘Vinte e Seis’’. Para colecionadores, trata-se de um disco desnecessário. Consequentemente, deve agradar apenas a quem tem uma idéia superficial do trabalho do cantor. A esses ouvintes, uma boa e agradável audição.
Do vedetismo ao intimismoTudo começou em 71, quando Ney, um ex-artesão matogrossense, se juntou a outros dois malucos - João Ricardo e Gerson Conrad, que aliás tomaram fartas goladas de chá de sumiço - e criaram os Secos & Molhados. A estrela, claro, era o rapaz magro e peludo que cantava em falsete e que tinha a cara pintada à base de vigorosas brochas de maquiagem.
Juntos, gravaram dois discos. Aliás, dois antológicos discos. O que havia de mais interessante no trabalho do trio era que, apesar do visual com forte apelo popularesco, o repertório dos seus discos eram tratados com muito zelo. João Ricardo e Gerson Conrad chegaram a musicar, por exemplo, poemas de Manoel Bandeira, Solano Trindade e até Vinícius de Moraes (a eterna ‘‘Rosa de Hiroshima’’). Venderam discos adoidados, lotaram ginásios de esportes, causaram rebuliço na mídia e na cabeça de medíocres censores da ditadura e outros etecéteras... Tudo para, em 74, cada um ir cuidar da respectiva vidinha.
A essa altura, Ney já estava consolidado como estrela. Também, era impossível passar despercebido. Virou ícone gay, foi esconjurado por senhoras com moral cheirando a naftalina, adorado por crianças que o imitavam em gincanas escolares e até esnobado por uma certa associação de músicos do Brasil. Para as críticas, ele andou. Em 75, o primeiro disco solo - ‘‘Homem de Neanderthal’’, raríssimo. Outros 13 vieram depois, sem contar as inevitáveis coletâneas.
No final da década de 70, a carreira de Ney já estava consolidada. Talvez em função disso ele tentou - em vão - fazer uma linha mais light e apareceu de cara limpa no show de lançamento do disco ‘‘Seu Tipo’’ (79). Humm!! Voltou corredinho ao antigo estilo. Em compensação, as rumbas, mambos e bolerões com um quê de cafonice deram lugar a um repertório, digamos, mais contemporâneo.
Até hoje, Ney deve erguer as mãos para o céu e agradecer a década de 80 - ganhou discos de ouro, angariou um público maior e homogênio e, principalmente, passou a ser visto como um grande intérprete. Ganhou prestígio, sobretudo. Em 87, aconteceu outra tentativa de mudar a imagem e chamar a atenção apenas para a voz. Foi no belíssimo show ‘‘Pescador de Pérola’’, que virou disco.
O estilo ficou tão impregnado que, gradativamente, foi ficando cada vez mais intimista. Em outras palavras, de lá para cá Ney foi dando, aos poucos, adeus ao balacobaco e ao vedetismo. Os discos, apesar de bem produzidos, foram perdendo um pouco de encanto e glamour que costumavam exalar. ‘‘Estava Escrito’’ (95), em que ele homenageia Angela Maria, é tão cool, mas tão cool que chega a provocar sucessivos e contagiantes bocejos.
Ney Matogrosso está cantando como nunca. Seu canto atingiu o equilíbrio exato entre técnica e emoção. Ney está numa fase serena, obviamente. Mas é impossível não perguntar: daqui para frente ele vai ser assim?

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