Em 1984 o Grupo Proteu apresentava no palco do Teatro Outro Verde um espetáculo teatral que entraria para história da cidade: “Bodas de Café”. Com direção de Nitis Jacon, 23 jovens atores encenavam a história de Londrina com uma nova perspectiva.

A montagem apresentava a perspectiva dos pioneiros que, apesar de contribuírem no processo de construção da cidade, foram desconsiderados pela história oficial. Mesmo enfrentando problemas com a censura do final da ditadura militar, o espetáculo comoveu Londrina e foi encenado em várias capitais do país com sucesso de público e crítica.

Sonia Pascolati: "Bodas de Café representou, no mínimo, a necessidade de compreender a história de Londrina sob outra perspectiva"
Sonia Pascolati: "Bodas de Café representou, no mínimo, a necessidade de compreender a história de Londrina sob outra perspectiva" | Foto: Fábio Alcover/ Divulgação

Em 2019, 35 anos depois, a editora Eduel está lançando “Bodas de Café”, livro organizado por Sonia Pascolati, professora do departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina.

A obra resgata o texto original da peça, de autoria coletiva dos integrantes do Proteu com finalização de Nitis Jacon. Traz também dois ensaios críticos em que Sonia Pascolati analisa a dramaturgia da montagem e a história do grupo.

O lançamento de “Bodas de Café”, com bate-papo, leituras e autógrafos, acontece no próximo sábado, dia 7 de dezembro, no Sesc Cadeião, às 18h30. A seguir Sonia Pascolati fala sobre o livro.

“Bodas de Café”, 35 anos atrás, propôs uma nova narrativa para a história de Londrina. Deslocou a atenção dos pioneiros ‘de sucesso’ para os pioneiros ‘sem sucesso’. O que isso representou para a cidade na época?

Representou, no mínimo, um despertar para a necessidade de compreender a história da cidade de uma outra perspectiva. Percebo uma espécie de “orgulho colonizatório” na cidade, visível por índices como o recente portal diante do Parque Ney Braga e um shopping com motivos londrinos. A adoção desses signos como parte da identidade londrinense ofusca a percepção de que, como toda colonização, também no Norte do Paraná o processo foi exploratório, algo que a primeira cena da peça ilustra brilhantemente. Em 1984, como em 2019, vejo a necessidade dessa revisão histórica.

Você acha que se a montagem fosse realizada nos dias atuais ela teria potência e repercussão semelhante àquela de 1984?

É difícil aferir essa possibilidade, mas a partir de um paralelo temporal, pressinto que não haveria o mesmo impacto, afinal, em 1984, o país vivia, entusiasmado, a doce expectativa da redemocratização, ao contrário dos últimos anos, em que assistimos a um retrocesso no âmbito das conquistas sociais. Visões críticas e anticonservadoras não têm sido bem recebidas nesses tristes trópicos...

Em um dos ensaios que integra o livro, você define “Bodas de Café” como “teatro político”. Por quê?

É político todo teatro que descortina processos sociais excludentes, discriminatórios, autoritários, o teatro que dá voz a quem foi e é calado pela ideologia dominante, da elite econômica. “Bodas de Café” cumpre plenamente esse papel.

O que a dramaturgia de “Bodas de Café” significa dentro da história do teatro brasileiro?

O Proteu esteve, em toda sua trajetória, afinado com o cenário teatral nacional e internacional, especialmente latino-americano e europeu. Porém, a historiografia do teatro nacional tem sido construída a partir do eixo Rio-São Paulo, algo que as pesquisas acadêmicas das últimas décadas têm tentado alterar, trazendo à luz produções fora desse eixo, caso do cenário teatral paranaense de que “Bodas de Café” faz parte. É possível identificar nessa dramaturgia parentescos com vários textos emblemáticos das décadas de 1960 e 1970, como “Revolução na América do Sul”, texto de 1961, de autoria de Augusto Boal, e “Gota D’água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, de 1975, para ficar apenas com dois exemplos do chamado teatro político nacional nos quais a influência do dramaturgo alemão Bertolt Brecht se faz notar.

Para conseguir ser encenada, “Bodas de Café” precisou passar por um processo de censura já no fim da ditadura militar. De 1984 para cá, o país mudou, mas ainda há gente propagando a volta do AI-5. O que aconteceu com o país?

Um triste retrocesso. A elite econômica e a classe política têm, declaradamente, defendido seus privilégios e tentado sufocar reivindicações populares e direitos coletivos fundamentais. Cenas capitais de “Bodas de Café”, como a da representação da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, adquirem uma triste atualidade quando testemunhamos, hoje, a “deslaicização” do Estado e uma reedição grotesca da caça aos comunistas dos idos de 1964.

Em outro ensaio que integra o livro, você apresenta um panorama histórico do grupo Proteu. Como você define a linguagem teatral do Proteu?

Como a sigla indica, o Proteu seguiu caminhos experimentais, partindo da encenação de textos dramáticos de autores como Chico Buarque, Sylvia Orthof e Mário Prata, para aventurar-se, a partir de “Bodas de Café”, em dramaturgias próprias. Espetáculos como “Transgreunte Ascendente Aquarius” (1985), “Tempo de Loucos e Bufões” (1989) e “Carmelita Adeus” (1993) alinham o grupo às experiências do teatro contemporâneo ao investir na performatividade cênica, na fragmentação da ação e da fábula, na proposição de figuras em lugar de personagens dramáticas, ao contrário do que ainda se vê em “Bodas”.

Impossível falar do Proteu sem falar de Nitis Jacon. Qual era o papel de Nitis nas montagens do grupo?

Pelos depoimentos de atores do elenco de 1984, Nitis era uma força catalizadora da potência criativa do grupo, com uma atuação sempre muito dinâmica e motivadora. Segundo entrevistas dela própria, a experiência como atriz sempre foi fundamental para o trabalho como diretora. Acho significativo, por exemplo, o fato de ela assinar a dramaturgia de “Bodas” juntamente com o grupo, pois realmente se trata de criação coletiva, assim como foi marcante o depoimento dos atores de que ela costumava demonstrar, na prática, o que queria do ator e conseguia do grupo os melhores resultados possíveis.

Serviço:

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“Bodas de Café”

Autor – Nitis Jacon Araújo Moreira e Grupo Proteu

Organização, notas e textos críticos – Sonia Pascolati

Editora – Eduel

Páginas – 242

Quanto – R$ 25 (preço promocional no lançamento)

Lançamento:

Dia 7 de dezembro (sábado), 18h30.

Sesc Cadeião Cultural (Rua Sergipe, 52).

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