Normalmente herói é um sujeito forte como touro. Consegue vencer monstros horríveis e sanguinários. Com inteligência e determinação, supera qualquer dificuldade para instaurar o bem no mundo. Com coragem e valentia, atravessa mares e montanhas para salvar francos e oprimidos
Mas existe um herói bem diferente. Um tipo que poderia ser descrito como idiota, quase uma anta de patinetes. Fraco e franzino, tem a inteligência de um carrapato. Preguiçoso e distraído, é capaz dos feitos mais imbecis. Mesmo assim, no final da história, sai vitorioso e admirado.
Ele está presente em alguns contos populares da brasileiros. É conhecido sob vários nomes como Mané Bocó, Zé Burraldo e João Bobão. É aquele tipo de sujeito tonto que faz tudo errado, entra nas confusões mais absurdas e, apesar de tudo, consegue fazer com que as coisas terminem com final feliz.
Algumas dessas histórias tradicionais estão reunidas em ''Histórias de Bobo, Bocós, Burraldos e Paspalhões'', livro de Ricardo Azevedo publicado pela Editora Projeto. O escritor e ilustrador paulista vasculhou antigas estantes e encontrou um punhado de contos recheados de personagens burros e abestalhados. Retirando a poeira, criou versões para alguns deles. Lançado no ano passado, a obra foi selecionada recentemente para fazer parte da cultuada ''Mostra Internacional da Biblioteca de Munique'', evento que agrega os principais títulos de literatura infanto-juvenil do mundo.
''Histórias de Bobos, Bocós, Burraldos e Paspalhões'' traz quatro contos. Eles apresentam as aventuras ou desventuras de engraçados trapalhões de bom coração. Tipos ingênuos que fazem tudo errado, especialistas em burradas e que adoram ser enganados. Por obra do acaso, a sucessão de bobagens, que seria uma desvantagem natural, se transforma numa luminosa vantagem. Algo como uma sucessão de erros que, juntos, viram acertos.
Além de muita risada, figuras como Mané Bocó, Zé Burraldo e João Bobão despertam sentimentos que outros heróis aqueles fortões e inteligentes não conseguem. Isso porque eles são o que são, não querem ser nem mais nem menos. Vivem de acordo com sua própria natureza e compreendem o mundo a partir do jeito que são, não como as pessoas esperam que sejam. E se deixassem de ser tontos, seriam falsos e, fatalmente, infelizes.
É sempre bom lembrar que todos nós temos momentos de idiota, nossas horas de jumento, nossos dias de anta. Como aquele ditado popular que diz ''só os tontos são felizes''.
Serviço:
''Histórias de Bobos, Bocós, Burraldos e Paspalhões'', de Ricardo Azevedo, Editora Projeto (www.editoraprojeto.com.br), 64 páginas, R$ 15,00.

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