"Boca de Ouro", de Nélson Rodrigues, reestréia no Oficina
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Beth Népoli 
São Paulo, 12 (AE) - Inconformado com a falta de recursos para encenar um novo espetáculo no Teatro Oficina depois do premiado "Cacilda!", o diretor José Celso Martinez Corrêa decidiu arriscar. Em pouco mais de um mês de ensaios preparou a peça "Boca de Ouro", de Nélson Rodrigues - a história de um lendário bicheiro de Madureira, subúrbio carioca -, para ser apresentada apenas duas semanas no fim do ano. E acertou mais uma vez.
A primeira montagem de um texto de Nélson Rodrigues na carreira do diretor foi realizada com um elenco jovem, o mesmo que fazia coro em "Cacilda!", e praticamente sem recursos. Ainda assim surpreendeu o público - que lotou o Oficina até no dia de Natal - e a crítica pela força do elenco e a qualidade da direção. Diante do sucesso, "Boca de Ouro" reestréia amanhã (13) para uma temporada no Oficina.
"Eu também fiquei surpreso com o rendimento dos atores, jovens demais para a profundidade exigida pelo texto", afirmou Zé Celso. "Foi por isso que criei o time de futebol no fim do espetáculo, uma alegoria ao equílibrio conseguido pela equipe". Ele se refere ao fato de os atores voltarem para o agradecimento vestidos com camisas do Fluminense ao som do hino do tricolor carioca, composto por Lamartine Babo e Lírio Panicari. Humor - Torcedor fanático do Fluminense, com o humor ácido que lhe era peculiar, Nélson Rodrigues veste o personagem Agenor, um velho sem maiores atrativos, com a camisa do time adversário, o Flamengo. A história de "Boca de Ouro" começa quando chega à redação do jornal "O Sol" a notícia de que morreu assassinado o mais poderoso banqueiro do jogo do bicho do Rio. O personagem central, o bicheiro vivido por Marcelo Drummond, ganhou o apelido que dá título à peça por ter substituído seus fortes e brancos dentes naturais por uma dentadura de ouro.
Como a ordem do dono do jornal é "espinafrar" o defunto até então prestigiado nas páginas do diário, o repórter Caveirinha (Flávio Rocha) parte para entrevistar Guiomar (Sylvia Prado), a Guigui, uma ex-amante abandonada pelo bicheiro. Com o intuito de conseguir um depoimento incriminador sobre o Boca, ele manipula o ressentimento da ex-amante e nada fala sobre a morte do bicheiro.
Encorajada pelo repórter, Guigui traça o retrato de um assassino frio. Para comprovar, conta a história do jovem suburbano Leleco (Fernando Coimbra), que vai até a casa do banqueiro pedir dinheiro para o enterro de sua sogra. Boca tripudia da penúria do rapaz, obriga-o a atrair sua mulher, a ingênua Celeste, até sua "fortaleza" e tudo acaba em tragédia para o jovem casal. Mas ela se arrepende do que falou ao saber da morte do Boca e chora a perda do amante viril.
Conta, então, outra versão para a história do mesmo casal, agora transformados em oportunistas e descreve o Boca como um homem com "pinta de lorde", tratado pelas grã-finas que o visitam como um deus azteca. Mas a versão desagrada ao seu marido, o aposentado Agenor (Reynaldo Gianecchini), e para não perder seu companheiro, ela conta uma terceira versão, na qual Boca é retratado como um covarde.
Embora satisfeito com o rendimento do elenco, Zé Celso continua ensaiando e acha que todos podem ir muito além. "Eu precisaria ensaiar muito mais". Segundo o diretor, o aspecto socioeconômico - as dificuldades financeiras do casal Leleco e Celeste - e a faceta da sensualidade dos personagens rodriguianos são facilmente assimilados. Mais difícil é mergulhar no aspecto religioso.
"Os personagens de Nélson buscam a transcendência; Celeste quer mais do que conforto, ela sonha em ser como Grace Kelly e Boca acha que não vai morrer por que está construindo um caixão de ouro", diz Zé Celso. "Quando os atores falam isso, olham para o Oficina, que é o meu caixão de ouro". Para abrigar o que chama de "palavras de ouro" do dramaturgo carioca, o diretor fez do Oficina uma imensa boca dourada, com o corredor do teatro transformado em língua vermelha. Serviço - "Boca de Ouro". De Nélson Rodrigues. Direção de José Celso Martinez Corrêa. Duração: 2h30. Quinta, sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 20,00 e R$ 10,00 (quinta). Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818. Até 5/3


