Boca de Baco nas amarras do amadorismo
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sexta-feira, 16 de maio de 1997
Francelino França 
Milton DóriaCena de Abajur Lilás, em cartaz no Teatro Zaqueu de MeloA atual fase de escassez de bons autores no cenário teatral brasileiro faz com que muitas montagens se firmem nos textos clássicos. Esta regra também foi escolhida pelo grupo londrinense Boca de Baco, ao percorrer o vigoroso e denso universo de Plínio Marcos. Na peça O Abajur Lilás, em cartaz no Teatro Zaqueu de Melo, o autor colocou uma generosa dose de observação social. A linguagem mordaz do dramaturgo impôs um ritmo aos diálogos que reforça a tensão, a guerra psicológica e a violência explícita dos personagens.
Plínio Marcos oferece a possibilidade de se conhecer os costumes e os vícios do ambiente da prostituição, sem resquícios de convencionalismo. O jogo entre colonizador e explorado é a força motriz da estrutura dramática da peça. O texto nos faz refletir sobre quantas vezes nos revezamos também neste vício entre dar a chibatada e dobrar a espinha.
Nesta montagem, o diretor André Luis Lopes optou por cenários reduzidos e economizou também na trilha sonora. O desenho de luz delimita precariamente o espaço cênico. Desde a primeira cena, percebe-se que o grupo não se libertou ainda das garras do amadorismo, mesmo depois de sete anos de estrada. Até o público menos exigente percebe como o Boca de Baco permaneceu no raso, quando o autor oferecia um pântano profundo.
A direção de André Lopes demonstrou ser acanhada e sem ousadia. Ao que parece, em termos de direção, ele contenta-se com pouca coisa. Não soube controlar os momentos importantes de cada cena, nem selecionar o que era relevante. E aí prevaleceu a falta de ritmo e a movimentação deficitária.
O acontecimento deflagrador desta tragédia, a quebra do abajur lilás, serve apenas de pretexto para os conflitos se multiplicarem. Todos os personagens são frágeis e atormentados e estão apenas tentando sobreviver. Giro, interpretado por Luciano Bitencourt, é o obcecado dono do mocó. Ele busca, incessantemente, expoliar as garotas do prostíbulo. O caminho escolhido para compor o homossexual velho e decadente, foi o da caricatura, com gestos afetados e a voz em falsete. Sua composição lembra o carnavalesco Clóvis Bornay, numa fase jovem, é claro.
A preparação de ator é o ponto-chave para encarar uma montagem de qualquer texto de Plínio Marcos. E não há nada pior para o teatro do que o homem de teatro mal preparado. Os instrumentos de trabalho do ator, a voz, o corpo e a intuição, se apresentaram de forma deficitária, sem forças para enfrentar um texto clássico.
A opção do diretor em utilizar homens interpretando personagens femininas foi muito arriscada, de difícil convencimento. As prostitutas, Célia e Leninha, no corpo dos atores Walter José e Nivaldo Lino, estavam mais próximas de burlescos travestis. Mesmo assim, Walter foi o ator que conseguiu imprimir mais coerência na interpretação e arrancou até alguns risos da platéia. Beto Passini, o Osvaldo, se afundou nos clichês do vilão.
A atriz Jackeline Seglin, a Dilma, alternava momentos de domínio cênico com outros de aparente desorientação. A cena mais comovente é aquela em que Dilma esbofeteia Célia. O ator Walter José deixa-se espancar, impassível. Aquela cena poderia ser o ponto de partida para que os cinco personagens se definissem verdadeiramente.
q O Abajur Lilás - de Plínio Marcos, montagem do grupo Boca de Baco, direção de André Luís Lopes. Hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 113), em Londrina. Ingressos a R$ 8,00 (estudantes com carteirinha pagam meia).


