O sórdido quarto de hotel de quinta classe do texto original virou um galpão de desmanche na adaptação da peça ''Navalha na Carne'', de Plínio Marcos (1935-1999), que o grupo Boca de Baco estreia neste fim de semana em Londrina.
O cenário, repleto de carcaças de carros, é um dos trunfos do espetáculo - o primeiro de uma série de eventos programados para comemorar os 20 anos de trajetória da trupe.
''Navalha na Carne'', um clássico da dramaturgia nacional, tornou-se um dos títulos mais encenados do autor. Foi montado pela primeira vez em 1967 trazendo a coleção de signos que marcaria sua obra: a linguagem crua, a violência, a galeria de personagens marginalizados e a tensão entre comédia e tragédia.
Dirigido por Luiz Valcazaras, o célebre triângulo da peça é protagonizado por Jackeline Seglin (no papel da prostituta ''Neusa Sueli''), Nivaldo Lino (o cafetão ''Vado'') e o ator convidado Poka Marques (o homossexual ''Veludo''). Este último retorna à cena após 15 anos distante dos palcos. ''A ideia de convidá-lo faz parte do resgate que promovemos nesse espetáculo para festejar os 20 anos e do qual fazem parte também a própria obra de Plínio Marcos e o Luiz Valcazaras'', explica Jackeline.
O grupo montou Plínio Marcos na década de 1990, quando teve a oportunidade de trazer o dramaturgo paulista a Londrina para assistir ao espetáculo ''O Abajur Lilás'', de sua autoria. ''Se pudéssemos resumir o legado de Plínio Marcos para o Boca de Baco seria o de assumir a visceralidade que o teatro pode e deve ter para um grupo de atores. Mesmo para um grupo como o Boca de Baco, composto de pessoas que tem outros ofícios e que exercem o do teatro com paixão e profissionalismo'', salienta a atriz.
Diretor e iluminador paulistano premiado, Valcazaras iniciou sua parceria com o grupo em 2000. Juntos, montaram a peça ''Fando e Lis'', com texto de Fernando Arrabal.
O espetáculo elevou o prestígio do Boca conquistando 11 prêmios e 15 indicações em vários festivais de teatro do país. Três anos depois, Valcazaras dirigiu outra montagem do grupo, ''Balada de um Poema''. A peça seguinte, ''Último Inverno'', contou com texto de Francelino França e direção do mineiro Marcelo Bones.
No atual reencontro com o grupo, ele faz questão de frisar a atualidade de ''Navalha na Carne'': ''Plínio Marcos foi o primeiro a levar a gíria da população não elitizada ao palco. Mas o mais importante de suas peças é que elas sempre trataram das relações humanas, dos conflitos, do exercício do poder e da subjugação do outro que ocorrem tanto no submundo quanto em qualquer outro ambiente social'', assinala.
O diretor atribui a longevidade do Boca à preocupação com a formação. ''O grupo nasceu de uma oficina de teatro para bancários e nunca deixou de realizar oficinas. Está sempre trazendo novos olhares para trocar experiências'', diz. Para Jackeline, a permanência talvez seja explicada pela sua origem, calcada na proposta de teatro de grupo.
''Quando surgimos, no início da década de 90, havia uma efervescência de grupos. Hoje em dia o que vemos é teatro de elenco, no qual as pessoas se juntam para montar uma peça. Não há muita continuidade de trabalho''.
O espetáculo fica em cartaz até 30 de maio, com apresentações às sextas, sábados e domingos.
Serviço
- Navalha na Carne com o grupo Boca de Baco
Quando - Amanhã e domingo, 21h
Onde - Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4159, esquina com R. São Salvador), em Londrina
Quanto - R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

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