Bobardeada pela crítica, "Chiquinha Gonzaga" agrada o público e consegue média de 34 pontos
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 1999
Por Luiz Costa 
São Paulo, 19 (AE) - O autor Lauro César Muniz conclui esta semana os três últimos capítulos de "Chiquinha Gonzaga", a minissérie da Globo que fica no ar até o dia 19. Foi, segundo ele, um trabalho duro, que o consumiu durante seis meses, sem folgas, por 14 horas diárias, entre pesquisas e roteirização. "Estou esgotado", admite. O esforço agradou o público: a minissérie de 38 capítulos chegou a ter médias de 34 pontos mesmo durante o carnaval. Foi, no entanto, bombardeada pela crítica, que o acusou de inventar mais do que biografar e deixar em segundo plano a importância da música na vida da compositora.
Em sua defesa, Muniz diz que recontar a história de Chiquinha é montar um quebra-cabeça com informações contraditórias, personagens vagos, dados dispersos. Além disso, a vida de Chiquinha tem tantos elementos de folhetim que seria "desperdício ficcional" não aproveitá-los. Pergunta - A sua minissérie foi fiel à vida de Chiquinha Gonzaga? Lauro César Muniz - Olha, aproveitei tudo o que havia nas quatro biografias que consultei: a escrita por Edinha Diniz, que é a mais detalhada, a de Dalva Lazaroni, Geisa Bôscoli e Marisa Lira, que foi amiga de Chiquinha e até hoje é considerada a versão oficial. O que percebi é que não há biografia que dê conta da vida de ninguém. Shakespeare não foi fiel ao rei em que se inspirou para criar "Hamlet". O filme "Amadeus" inventou uma rivalidade entre Mozart e Salieri que nunca existiu. Por mais fiéis que sejam, duas biografias diferentes terão sempre dados contraditórios. Várias pessoas que fizeram parte da vida de Chiquinha eram apenas citadas em trechos de livros, referências rápidas, colhidas aqui e ali, sem carne ou osso. Meu desafio era em parte transformar em ser humano figuras sem vida própria nos livros sobre Chiquinha. Pergunta - Por exemplo? Muniz - Susete (Danielle Winitz e Susana Vieira na minissérie) é citada de passagem ou só tem seu nome mencionado nas biografias. Era a mulher francesa de JB (Carlos Alberto Ricceli), o amante de Chiquinha (Gabriela e Regina Duarte). Na minissérie, Susete faz contraponto à heroína. É o exemplo extremo de personagem criada do nada. Já JB é a criação feita a partir de dados contraditórios. Uma biografia diz que ele teria conhecido Chiquinha na juventude. Outra garante que ele a conheceu quando já estava casada com Jacinto (Marcelo Novaes). Ele teria sido amigo de Jacinto e frequentado a casa do casal. Como Edinha Diniz afirma que JB foi o grande amor de Chiquinha, eu o fiz marcar toda a vida da compositora. As biografias sugerem que ela pode ter tido um caso com Carlos Gomes, de quem regeu "O Guarani". Na minissérie, ampliei a relação com o compositor, que ela conheceu em 1880 e só voltou a rever em 1889. Eu concretizei o romance na ficção. Escolhas como essa são ficcionais, mas verossímeis porque as lacunas biográficas permitem. Pergunta - Por que, então, o foco na juventude de Chiquinha, se a fase produtiva e engajada da compositora só viria na maturidade? Muniz - O primeiro sucesso composto por Chiquinha foi "O Atraente", em 1877. Mas até lá, ela já havia sido casada com Jacinto, tido três filhos, ido à guerra do Paraguai com o marido, separado dele e, por isso, foi banida pelo pai. Então teria conhecido JB, foi para Minas, onde teve sua filha Alice. Até que pegou JB com outra e disparou para o Rio. Só, então, começou a virar a compositora que conhecemos. Seria um desperdício ficcional não aproveitar tanta coisa folhetinesca, rica e forte, na vida dessa mulher. Além do mais, tudo o que ela fez na fase madura foi consequência da primeira parte de sua vida. Pergunta - Mas isso não provoca um desvio de foco: a feminista sobrepõe-se à compositora, atividade pela qual ela, afinal, ficou conhecida? Muniz - Não, porque todo o processo criativo, desde o seu lançamento no teatro-revista e sua busca estética por meio da música, está na minissérie. Não deixei nada de fora. Mas imagine o potencial dramático de uma mulher que vai à guerra e vê gente morrer num século em que as mulheres iam, no máximo, à igreja. Um folhetim não pode deixar esse tipo de informação de fora. Tinha de escrever 38 capítulos, 19 dos quais com Regina Duarte, na fase madura. Eram capítulos de sobra para desenvolver o grande período musical e feminista da personagem. Pergunta - Você não acha que a música ficou em segundo plano na produção? Muniz - Não. Tive o cuidado de só no capítulo 20, que foi ao ar na semana passada, fazer a personagem lidar diretamente com atividade criativa. Até então, ela havia tido contato com a polca, o lundu, a abanera, o tango espanhol. Da mistura desses ritmos veio o chorinho, como o tango foi fruto da polca, do tango espanhol e da milonga. O chorinho que conhecemos veio das pesquisas que realizaram figuras como Chiquinha, Joaquim Calado e Henrique Alves de Mesquita, seus companheiros de confeitaria. Seu talento aflorou dessas reuniões, eu creio. Tentei passar esse ambiente de ebulição criativa dos personagens sem perder o rumo da ficção. Pergunta - Muitas críticas apontaram a falta de ritmo das cenas como uma falha na minissérie. Muniz - O ritmo na minissérie não importa tanto. O diretor Jaime Monjardim prioriza a relação entre dois personagens numa cena. É uma opção dele captar a carga emocional, os olhos que se penetram. Esse tipo de escolha pede tempo para que a relação ocorra. Se se perde a velocidade das sequências, ganha-se no aprofundamento da emoção de quem contracena. Tivemos dificuldades incríveis para reconstituir a história de Chiquinha, que atravessa os tempos de bonde a burro ao automóvel e ao cinema. O resultado agrada-me muito. Pergunta - Depois desse trabalho, que imagem você ficou de Chiquinha? Muniz - O de uma mulher que rompeu barreiras, a primeira brasileira a fazer algo popular artisticamente num universo dominado por homens. Isso para quem começou a carreira aos 30 anos, num contexto em que a maioria dos artistas era precoce, como Castro Alves e Olavo Bilac. O de uma compositora obsessiva, com produção volumosa. Desde que comecei a pesquisa para escrever a minissérie, há seis meses, encontrei cerca de 350 citações de canções em seu nome, não 2 mil como garantia a lenda. Desde então, trabalho 14 horas diárias só pensando em Chiquinha Gonzaga. O que quis mostrar na minissérie é que essa mulher talentosa e engajada em seu tempo ainda é um exemplo a ser multiplicado nos dias de hoje.


