BOBAGENS, SABOROSAS BOBAGENS
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
O cotidiano é uma recheada cesta de piquenique. Tudo é possível quando a sua tampa é aberta sob a sombra de uma árvore. A literatura tem uma maneira peculiar de se relacionar com o recheio dessa cesta. Através de crônicas consegue oferecer uma dimensão do dia a dia que, de maneira geral, não percebemos. Tudo pode ser inusitado, até a leitura.
Prova disso é o caso das formigas letradas. Vou contar. Após dois dias de chuva e frio, resolvi abrir a caixa do correio para pegar a correspondência. Entre os vários papéis estava um envelope com um livro dentro. Ao abri-lo, levei um pequeno susto. Formigas tinham feito ninho dentro do envelope. Eram dezenas de formigas. Tinham se refugiado dentro do livro, naquele espaço específico entre a capa e a orelha. -
Não eram formiguinhas pequenas e inofensiva, mas daquelas grandes, pretas e enfezadas. Um verdadeiro arsenal de ovos transparentes infestava o local. Não consegui entender como elas haviam entrado dentro do envelope e se instalado no interior do livro, mas estavam lá, defendendo suas crias com unhas de dentes. Elas poderiam ter vindo do Rio de Janeiro (local do remetente) via postal ou invadido o livro quando ele já estava dentro na caixa de correio.
O livro em questão era justamente um volume de crônicas, Minhas Tudo, nova obra do escritor mineiro Mario Prata lançada pela Editora Objetiva. A primeira dúvida foi a seguinte: as formigas tinham escolhido o livro de Prata de maneira proposital, ou por pura obra do acaso? Havia outros envelopes com outros livros na caixa do correio, mas elas escolheram justamente aquele. Teria em suas páginas uma sucessão de frases açucaradas?
Após ler Minhas Tudo, as coisas ficaram claras. Tudo indica que as formigas perceberam que o autor voltou à sua velha forma literária depois de publicar dois livros recheados de bobagens, Minhas Mulheres e Meus Homens (Editora Objetiva, 1999) e Os Anjos de Badaró (Editora Objetiva, 2000). Isso não significa que Prata deixou as bobagens de lado, aquelas bobagens que todo leitor gosta, mas conferiu a elas um sentido maior.
Minhas Tudo reúne 60 crônicas escritas a partir de temas definidos, colocando as relações entre as pessoas e objetos em evidência. A partir de temas como roupa, criado-mudo, colchão, pedestre, fila, corpo, purgatório aeromoça, maturidade, guarda-chuva, carteira, pêlo, filho, etc, Mario Prata desenvolve leituras bem-humoradas do cotidiano.
Alguns textos chegam a lembrar a mesma capacidade de percepção presente nas crônicas de Luis Fernando Verissimo. A maneira como Prata lê as coisas à sua volta, faz com que a realidade cotidiana seja investigada através de uma ótica desencanada. Nesse processo realiza uma espécie de descascamento da vida utilizando as ferramentas do humor sutil.
O grande personagem das crônicas de Minhas Tudo é justamente o próprio autor. O que à primeira vista parece ser egocentrismo, revela-se um processo natural de existência. A maneira mais imediata de percepção da realidade está justamente na maneira como cada pessoa se relaciona com as coisas mais próximas. A vida é uma cadeia de relacionamentos que envolve seres humanos e objetos. Inclusive as formigas, aquelas que invadiram o livro de Mario Prata e foram desalojadas em nome da leitura.
Minhas Tudo, de Mario Prata, Editora Objetiva, 184 páginas, R$ 18,90.


