Bob Nugent penetra no coração das trevas
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terça-feira, 10 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 11 (AE) - Eckhout, Debret, Frans Post não tinham apenas interesse etnográfico pelo Brasil. Foram de tal forma tomados pela paisagem brasileira que a compulsão naturalista dos três acabou resultando, paradoxalmente, numa representação metafórica do País. De lá para cá, não foram muitos os artistas viajantes que pisaram o solo brasileiro para registrar o exotismo da flora e da fauna. O californiano Bob Nugent, nascido há 52 anos, não só viajou pela Amazônia diversas vezes como conviveu com os índios uaurás, organizando até uma exposição de sua arte nos Estados Unidos. Há anos ausente do circuito brasileiro, ele volta a expor amanhã, na Dan Galeria.
São pinturas, aquarelas e gravuras que, aparentemente, poderiam ser tanto fragmentos paisagísticos da Amazônia como registros da superfície venusiana. Sobre essa ambiguidade vale lembrar a observação de Giacometti a respeito de Derain. Como o pintor francês, Nugent quer superar a aparência das coisas para chegar à aparência do desconhecido que nos rodeia. Tanto que não sofre da mesma compulsão naturalista de Eckhout. Esses pequenos registros da natureza são quase evocações proustianas, fragmentos da memória de longas viagens pelo Rio Negro e meditação no coração das trevas, a assustadora floresta amazônica.
Medo - "Tenho medo dela como uma criança, mas com o mesmo prazer infantil de sentir esse medo", diz o pintor. Aprendeu com os índios que é impossível representar a floresta. "Você tem de sentar e deixar a Amazônia passar por você", recomenda, revelando que as obras da exposição, produzidas em seu ateliê californiano, jamais perseguiram a representação naturalista. Como seu professor Richard Diebenkorn, um mito da pintura americana, ele quer chegar à síntese da paisagem. Não com a inocência de um nabi. Nugent não divide a mesma crença de Maurice Denis. A pintura, para ele, não é apenas uma superfície coberta de cores organizadas numa certa ordem. É a revelação de um espaço metafísico.
Diebenkorn conseguiu chegar à essência da paisagem californiana sintetizando as formas de Ocean Drive. Nugent, que se considera um incurável romântico, ainda não chegou lá, mas está a caminho. Diz que jamais admitira uma pintura tautogórica. Suas telas ainda comportam a classificação de alegóricas, embora os trabalhos em pequeno formato (técnica mista, unindo aquarela, guache, carvão e gravura) sejam mais livres, fruto de sua observação de plantas, ninhos, insetos e casulos.
Ideograma - Num pequeno trabalho em técnica mista, Nugent forja um ideograma sobre o objeto, ocupando o espaço ferrugem com anotações que desafiam a lógica e a autonomia do próprio desenho. Humildemente, ele justifica o ato como a admissão de que a experiência mítica na floresta não pode ser reconstituída no papel ou na tela. "Não tive nenhuma experiência similar, apesar de ter vivido e estudado no Japão, que é igualmente exótico para um americano", conta.
Na selva, o elemento agravante é a ausência de horizonte na paisagem. Tudo passa por ela, fica acima ou sob seus pés, nunca diante dos olhos. Não por outra razão, os títulos das duas melhores séries de Bob Nugent são justamente Atrás e Abaixo. "Nem por isso precisamos ficar angustiados", observa o pintor. "É só sentar-se e deixar a selva operar um milagre em sua cabeça."


