Antes de eletrificar seu folk, Bob Dylan já dava o que falar com suas canções politizadas. O cineasta D.A. Pennebaker, cujo currículo destaca títulos sobre o universo do rock, saiu no encalço do músico americano para registrar sua turnê britânica em 1965.
As filmagens renderam o longa ''Don't Look Back'', documentário em preto-e-branco que será exibido hoje, às 23h30, pela TV Cultura. Dylan tinha 23 anos à época. Vivia um momento de transição. Posteriormente, assustaria os puristas ao introduzir a guitarra em suas composições projetando-se mundialmente como um dos compositores mais influentes do século XX.
Na abertura, o cantor aparece atirando para cima cartões com versos da letra de ''Subterranean Homesick Blues'' num fragmento que é considerado um dos precursores do vídeo de musica pop. No longa, a câmera capta poucos mas marcantes números musicais. Um dos pontos altos da excursão foram dois dias de shows no Royal Albert Hall, nos quais Dylan faria apresentações memoráveis com Beatles e Rolling Stones na platéia.
O filme ressalta os bastidores em flagrantes do artista nos ensaios, em contato com a imprensa e os fãs, fumando, escrevendo à máquina ou conversando com os amigos Joan Baez, Donovan e Alan Price (tecladista dos Animals). No livro ''Dylan - A Biografia'', publicado no Brasil pela editora Conrad, o autor Howard Sounes traz passagens contrangedoras sobre o que ocorria longe dos holofotes. Veja um dos trechos: ''A chegada de Bob à Grã-Bretanha tornou-se mais excitante porque ele estava acompanhado de Joan Baez que, pelo que o público e a imprensa sabiam, era sua companheira. Mas nos bastidores a relação entre Dylan e Joan estava se desintegrando. Ela fora para a Grã-Bretanha com Bob em parte porque achou que ele a apresentaria a suas entusiasmadas platéias inglesas, devolvendo o favor que ela lhe fizera nos Estados Unidos, onde era mais popular. Era uma expectativa razoável: eles tinham viajado em turnê pelos Estados Unidos até o mês anterior e Bob realmente a convidara para acompanhá-la pela Inglaterra. Mas, uma vez lá, ele não parecia querer Joan por perto. Provavelmente ele percebeu que era tão popular na Grã-Bretanha que não precisava dividir o palco com ninguém. O que quer que estivesse passando pela sua cabeça, ele não a convidou para cantar em sua companhia no palco, e a ela restou apenas treinar sua irritante voz soprano em quartos de hotel e nos bastidores, enquanto andava atrás dele''.
A câmera de Pennebaker registrou tais cenas para a posteridade. A turnê ocorreu um mês depois do lançamento do álbum ''Bringing It All Back Home'', que colocou Dylan no topo da parada inglesa. O filme foi lançado em 1968 com seus 96 minutos originais. Recentemente, o DVD do longa chegou ao mercado numa edição especial, recheado de extras e adicionado de um disco bônus com 20 horas de material inédito do arquivo de Pennebaker incluindo cinco músicas (apenas em áudio) gravadas ao vivo durante os shows.
Para os amantes do cinema, ''Don't Look Back'' revela a técnica do diretor, um dos pioneiros do ''Direct Cinema'' (cinema direto) - um estilo de documentário que se aproveitava das evolução das tecnologias de filmagem da época para captar a realidade como ela é, contrapondo-se ao cinemão de estúdio.
Além de ''Don't Look Back'', ele rodou outros títulos de temática musical como ''Monterey Pop'' (1968), ''Ziggy Stardust and the Spiders from Mars'' (1973) e ''Woodstock Diary'' (1994).
Serviço:
Documentário ''Don't Look Back''
Quando - hoje às 23h30
Onde - TV Cultura

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