Boa música para todos os gostos
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terça-feira, 08 de novembro de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''Cara, esse é o festival mais 'na paz' que existe'', comenta um menino de óculos, barba rala e com uma camisa listrada, apertado na grade do palco principal do Planeta Terra 2011. O garoto é o estereótipo perfeito da geração indie, que desde 2009 adotou o Festival como principal expoente nacional do gênero.
A edição deste ano foi realizada no último sábado em São Paulo, e contou com a presença de bandas famosas como Interpol, Beady Eye e Strokes, além de outras 13 atrações divididas entre os dois palcos do evento (Main Stage e Indie Stage).
Famoso pela sua organização impecável e público diferenciado, o evento manteve nesta edição a sua qualidade e atingiu a expectativa dos fãs do gênero. Em um ano repleto de mega eventos como SWU e Rock in Rio, o Planeta teve seus 25 mil ingressos esgotados apenas 14 horas depois do início das vendas, fato que surpreendeu a própria organização do evento e que decepcionou alguns, que dormiram no ponto e acabaram de fora da festa.
O parque de diversões do Playcenter serviu novamente como palco do evento: com brinquedos funcionando, brindes e diversão gratuita. Até os banheiros tinham um agradável aroma de hortelã e sabonete líquido sobrando - o que é utopia para qualquer outro festival no Brasil faz parte da realidade do Planeta.
Além de toda a estrutura, a música boa também é característica do evento. Debaixo de um céu limpo e sol ardido da capital paulista, o rapper Criolo abriu a programação do Main Stage às 16h, embalando o público com as canções de seu ótimo último disco - ''Nó Na Orelha'', distribuído gratuitamente pela internet - e mostrando que fez por merecer a tonelada de prêmios que ganhou no VMB deste ano (Criolo foi prestigiado com as categorias ''Videoclipe do Ano'', ''Álbum do Ano'', ''Artista Revelação'' e ''Música do Ano'' pelo juri da MTV Brasil). Com uma mistura bem feita de rap, MPB, funk e blues, o cantor e compositor foi acompanhado por um bom número de pessoas, que batiam palmas e cantavam junto sucessos como ''Não Existe Amor em SP'', um dos maiores destaques do músico.
Enquanto o rapper paulistano agradeceu o ânimo da plateia e elogiou o Festival pela ausência de um ''espaço VIP'' na frente dos palcos, Jorge du Peixe, vocalista da atração das 17h30, Nação Zumbi, fez um protesto sobre o fato de bandas brasileiras terem que tocar debaixo do sol forte - reclame despropositado, sendo que o grupo não lança um disco relevante desde 1997, saindo atrás de todas as outras bandas que subiram ao palco mais tarde. Mesmo assim, os sucessos antigos e a percussão perfeita do Nação animaram o público, que acompanhou com vontade os hits ''Manguetown'' e ''Maracatu Atômico'', todos da época dourada de Chico Science.
Gradualmente, o céu azul deu espaço à noite estrelada e as expectativas aumentavam minuto a minuto. ''White Lies é melhor que Strokes!'', declarava, aos gritos, um fã solitário no meio da multidão. Não é para tanto, mas a revelação do rock britânico subiu às 19h no palco principal e logo ganhou o público com músicas como ''A Place to Hide'' e ''Death'', orquestradas perfeitamente pela voz do vocalista Harry McVeigh que, filtrada eletronicamente, demonstra a forte influência do som do grupo no pop rock dos anos 80. Impressionados com a boa recepção do público, o White Lies deixou o palco em alta, e começou a desenhar uma noite extraordinária.
''Moço, eu só vim aqui para ver o Broken, você pode me dar um espacinho?'', implorou uma garota de óculos, acompanhada por outras duas amigas fanáticas pelo som dos canadenses. Competentes e pontuais, o Broken Social Scene fez sua primeira apresentação no Brasil alternando sua batida indie/experimental com algumas grandes epopeias sonoras que, apesar de competentes, fizeram a maior parte do público bocejar. Nem os gritos estridentes dos poucos fãs da banda conseguiram salvar a perfomance do Social, que acabou sendo a apresentação mais morna de toda a programação do palco principal.
Abrindo a tríade de shows principais, o Interpol, ícone da cena pós-punk americana, desde o início hipnotizou a plateia com suas linhas de baixo marcantes e composições sombrias. Em um dos momentos mais emocionantes da noite, a música ''Evil'', sucesso do álbum Antics, foi acompanhada em coro por fãs alucinados. ''Obrigado!'', arriscou, em português, o vocalista Paul Banks, surpreendido pela recepção do público brasileiro. ''Obrigado você, meu filho!'', respondeu uma voz estridente na plateia. Elogiado pela crítica mundial, o quarteto de Nova York ganhou, definitivamente, a simpatia da multidão do Planeta, que aplaudiu bastante.
Liam e seu Beady Eye
Com toda a pompa já esperada, o Beady Eye chego cheio de estilo e animou o público com rock bem feito, abrindo seu show com os acordes poderosos de ''Four Letter Word''. O som do Beady Eye, mesmo desconhecido por grande parte do público, foi tecnicamente impecável e injetou uma boa dose de rock and roll nos ouvidos do público, arrancando aplausos e gritos de ''Liam, Liam!'', em referência ao ex-vocalista do Oasis. Inquieto, o egomaníaco líder do Beady Eye se mostrou um pouco incomodado em abrir para o Strokes, e alfinetou algumas vezes os fãs da banda.
Com murmúrios em inglês quase incompreensíveis, o vocalista apontava e aplaudia o público, especialmente os fãs que estavam com a camiseta da sua banda. ''Isso aí, você é o cara!'', disse, apontando para um emocionado fã na frente do palco, que ganhou a noite. É incrível como Liam - que mal se mexe no palco - tem tanta presença, e sua maior virtude é levar o show igual a um maestro, ao mesmo tempo venerado e mal-encarado. ''Obrigado. Esse foi o Beady Eye. Vejo vocês todos no Rio (cidade onde o grupo tocaria no domingo). Vai ser ótimo. Não vai ter Strokes'', e, assim, o polêmico Liam desapareceu no palco e se despediu do Festival, sem bis.
O aguardado show do Strokes merece um comentário a parte (ver box) mas, com certeza, essa é uma noite que vai demorar para ser esquecida pelos fãs de diversos gêneros - seja a multidão enlouquecida pelas atrações principais ou pessoas que vieram para conferir as revelações e tendências no cenário do indie-rock; o mérito da edição 2011 do Planeta foi o de descartar os medalhões veteranos da música, apostando em novos sons e ideias que estão nascendo, consolidando o Festival como sendo um dos mais inovadores - e importantes - do Brasil e do mundo.
*Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna Leitura, de Marcos Losnak


