Boa história de fantasmas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de agosto de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Ele não chega a ser um novo Tim Burton, mas pode chegar lá. Ainda mais quando logo de saída recebe duplo apadrinhamento tão luxuoso quanto influente, Steven Spielberg e Robert Zemeckis no papel de produtores executivos. O fato é que o jovem diretor Gil Kenan se deu bem em sua estréia com ''A Casa-Monstro'', animação terrorífica que chega hoje em bem-assombrado lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2).
Cabe a advertência: não é filme para se levar filhos pequenos. Reforça-se a sugestão: é filme para levar os filhos não tão pequenos. A proposta é uma viagem ao universo infantil, com seus medos e inseguranças. E os adultos acompanhantes que se preparem, porque serão aqui e ali abertamente questionados, e com exemplos. Nada muito grave, mas a carapuça pode servir. Por essas e por outras muitas e boas o filme pode até se converter em objeto de culto.
E temos a história, a um só tempo engenhosa e simples, divertida e surpreendente. Às vésperas de mais um Halloween, dois amigos de 12 anos, DJ e Chowder, mais a menina Jenny, se juntam para enfrentar um velho misterioso, Nebbercracker (voz de Steve Buscemi na versão original), e mais os sinistros poderes ocultos numa mansão possuída pelo espírito de uma mulher vingativa (voz de Kathleen Turner). A casa engole tudo o que aparece em seu jardim, desde brinquedos até policiais, passando pelos cachorros da vizinhança.
Com diversos pontos em comum com o cinema de Tim Burton, e com estética que evoca ''O Castelo Animado'', de Hayao Miyazaki Hollywood ainda vai aprender muito com este mestre japonês , ''A Casa-Monstro'' é um trem-fantasma num parque de diversões, mas em velocidade capaz de assimilar os códigos da puberdade, a incomunicabilidade que aflige aquela faixa etária e a falta de limites para muitos pré-adolescentes, aqui trabalhada na relação que DJ estabelece com os pais e com a babysitter contratada para cuidar dele.
Além da empatia e identificação a partir do trio de protagonistas, outro grande achado do filme são os personagens periféricos de perfil cômico, como Bones, o noivo da babysitter, e a ótima dupla de apatetados policiais.
Evidentemente os criadores de ''A Casa-Monstro'' são tietes de clássicos do terror, e também se lembram com carinho dos filmes infantis dos anos 1980. A combinação destas influencias gerou grande potencial, devidamente aproveitado pela narrativa. Do ponto de vista tecnológico, o filme retoma a experiência iniciada por Robert Zemeckis em ''O Expresso Polar'', mas o diretor Gil Kenan encontrou solução muito melhor, um meio termo entre o realismo da animação e a técnica ''motion-capture'' ou captura de movimentos (filma-se primeiros os atores, captura-se estas imagens e logo, a partir deste material, se parte para a animação computadorizada em 3-D).


