Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A música americana rolou solta pela Argentina nas décadas de 60 e 70. Era só ligar o rádio que os sucessos do rock europeu e americano estavam no ar. O tango pertencia a outra geração, situada nos distantes anos 40 e 50. Por isso, Danny Vincent se enveredou nos embalos dos Beatles para desembocar em Johnny Winter, Santana, Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd, até atingir o cerne do blues americano.
Aos 12 anos ganhou um violão do pai, Tito Vila, músico de tango. Era o início do aprendizado de um guitarrista que hoje mora no Brasil e tem o reconhecimento de nomes como Nuno Mindelis e Flávio Guimarães – responsável pela harmônica do Blues Etílicos. No currículo, acumula apresentações ao lado de Ronnie Earl e Robert Cray, além de abrir o show de B.B. King em São Paulo, no ano passado.
Com essa bagagem, Danny Vincent promete um bom espetáculo hoje no palco do Empório Guimarães, em Londrina, a partir das 22 horas. O show vai reunir trabalhos antigos – uma mistura de baladas, boogies e blues com acento texano – e blues latino, caminho que pretende trilhar em seu próximo CD – influência direta de Santana.
Na Argentina, Danny integrou várias bandas e participou de alguns discos. Mas a crise apertou no final dos anos 80 e a inflação explodiu. Como os abalos financeiros atingem diretamente a carreira de músicos, o guitarrista resolveu vir para o Brasil, onde tinha parentes e alguns contatos.
‘‘O Alfonsín foi maravilhoso em termos de direitos humanos, mas para a economia foi um desastre, o campo para a música era terrível e decidi vir. Foi a melhor decisão. Em nível artístico, o Brasil me deu tudo o que a Argentina não deu’’, comenta.
A mudança ocorreu em 1990, quando Danny Vincent participou da formação da Albatross Blues Band em São Paulo. O músico foi se firmando no cenário musical e, em 1993, recebeu um telefonema de Nuno Mindelis. O guitarrista angolano tinha vários shows marcados, mas a banda estava desfalcada de um baixista. Vincent aceitou o convite, sem abandonar trabalhos paralelos como guitarrista.
O primeiro disco solo, ‘‘Blues at Close Range’’, ganhou elogios da crítica e contou com a participação de Mindelis. O repertório foi todo construído com músicas próprias e Danny apresenta a desenvoltura de um instrumentista amadurecido, despojado de solos exibicionistas ou exageros vocais.
O disco traz uma pegada do blues elétrico do sul dos Estados Unidos, influência provável de Johnny Winter. Os solos aliam técnica a competência melódica – o blues exige intimidade para não deixar arestas, caso contrário fica com jeito de uísque falsificado. Entre os destaques, há uma versão rocker de ‘‘I Can See Clearly Now’’, um dos medalhões do soul.
Mas, após o lançamento, Danny Vincent enfrentou alguns problemas com a gravadora Paradoxx. Hoje, o CD é difícil de encontrar. O músico não tem pressa em lançar o próximo trabalho e evita obrigações como gravar um álbum por ano. Mas já adianta: independente da data, o próximo trabalho vai ter influências latinas. Danny Vincent esteve na redação da Folha para a seguinte entrevista:
Como um filho de violonista de tango enveredou pelo rock e pelo blues?
O rock europeu e americano tocavam nas rádios. A Argentina não teve um movimento como a Bossa Nova ou a Tropicália para frear um pouco isso. Nós tomamos isso como nossa música representativa. O tango não nos representava.
Grupos como o Blues Etílicos tiveram dificuldades para fazer blues no Brasil durante a década de 80. Você também enfrentou problemas na Argentina?
Lá era mais fácil, a Argentina é mais roqueira. Hoje pode-se dizer também que a Argentina tem um público mais blueseiro.
Você está enveredando pelo blues latino.
Eu dei uma olhada no ambiente de blues do Brasil e vi que não tinha ninguém que preenchesse este espaço. Não é só gostar, fico muito cômodo nesse estilo. Estou com um ótimo percussionista chileno, Boris Acuña, o que já é meio caminho andado. A percussão é tão importante quanto a guitarra nesse estilo.
O blues da América Latina já desenvolveu características próprias?
Tem uma característica que é não cantar em inglês. O Blues Etílicos já gravou músicas em português e isso é importante para o blues deixar de ser uma coisa para poucos. Você tem que falar o idioma das pessoas. Gravei o meu primeiro disco em inglês por causa do meu sotaque, mas o próximo será em português. Tem uma outra característica: geralmente os músicos ouvem pouco blues. O blues é simples, mas não é fácil. Muitas bandas não respeitam o estilo. Para tocar tem que ouvir bastante. Tem que começar tirando música dos outros de ouvido. Mas isto é feito com superficialidade, gerando uma característica nestas bandas. Bem ou mal, é uma característica.
O que os americanos acham do blues feito aqui?
É como se um cara da Ásia viesse para o Brasil e tocasse bem o samba. É difícil... No começo eles dão umas risadinhas... Salvo exceções, eles ficam assustados ao ver que aqui tem bons músicos de blues. Aí a reação muda. O blues virou uma música universal. Tem músicos que vêm aqui e vêem que tem gente no mesmo nível ou superior a muitos artistas.
Como será seu próximo disco?
Terá composições próprias. Vai ter muita percussão, vou fazer uma pesquisa grande de ritmos latinos. O próprio Flávio Guimarães está neste caminho, trabalhando com ritmos brasileiros. Eu vou mais pelo lado do Santana.
O que você vai mostrar no show de hoje?
Vão ser quase duas horas de show. Vai ter as melhores coisas dos antigos trabalhos, os boogies, blues e baladas melódicas e um set de blues latino. Não vamos fazer nada meia boca. Vai ser bastante variado, um show com muita energia. Vamos incendiar o Empório Guimarães.
Danny Vincent & the River – Show de blues com o guitarrista argentino e banda. A partir das 22 horas no Empório Guimarães (Rua Paraíba, 533), em Londrina. Ingressos a R$ 10,00.

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