Os bluesmen, mais objetivos como T.Bone Walker, dizem que para tocar o blues ''é preciso viver o blues''. Cada músico de blues vivenciou, em maior ou menor grau, os blues. Mas ninguém viveu como Blind Willie Johnson, nascido em 1902 em Marlin, Texas, numa fazenda perto do rio Brazos. Eram muitos os cantores de blues cegos que acrescentavam o título Blind ao nome, mesmo sendo falsos, o título davam ''status'' e os ajudavam a ganhar a vida. Willie Johnson era cego mesmo, desde os sete anos quando a madrasta lhe jogou ácido nos olhos para se vingar de seu pai depois de uma surra.
Willie cantou blues de exaltação religiosa nas pequenas cidades do sul do Texas. Aos vinte e cinco anos foi para Dallas, onde conheceu sua mulher e parceira de canto, Angeline. Descoberto por caçadores de talentos, Willie Johnson fez algumas gravações e se tornou um dos grandes sucessos no sul durante muitos anos. Quando sua gravadora faliu, na época da Depressão, em 1932, ele sumiu e nunca mais fez um disco.
Em 1949 Willie Johnson e Angeline foram acordados por um incêndio em sua casa em Beaumont, Texas. Conseguiram apagar as chamas com baldes de água e, sem dinheiro, não tendo para onde ir, deitaram na cama carbonizada e molhada para dormir. Willie pegou uma pneumonia, agravada porque continuou a cantar pelas ruas geladas. Quando procurou um hospital, se recusaram a atendê-lo porque era cego. Autor da canção Jesus Make Up My Dying Bed, voltou para a casa arrasado, deitou-se em sua cama molhada cobrindo-se com jornais velhos e morreu poucos dias depois.
Willie Johnson tinha um timbre só seu, um exímio guitarrista, um virtuoso do slide (bottleneck), com uma enorme capacidade de aflorar seu sentimento através de sua música quase transcendental e que realmente merece ser ouvida. No ano passado, Johnson foi homenageado com a produção do filme ''The Soul of a Man'', de Wim Wenders, uma viagem pelas vidas e música de Blind Willie Johnson, Skip James, e J. B. Lenoir. Para tal, o realizador contou com as atuações exclusivas de Lou Reed, Nick Cave, Los Lobos, Cassandra Wilson, Lucinda Williams, Bonnie Raitt ,Beck, entre outros, que interpretaram versões dos artistas citados. A trilha sonora do filme deu origem a um Cd.
Segundo o diretor alemão, os três personagens reais tiveram em comum, além de um extraordinário talento, o fato de terem morrido cedo e pobres, deixando poucas gravações. Recompor a trajetória dessas três lendas do blues, que morreram há cerca de quarenta anos, ofereceu muitas dificuldades. De Blind Willie Johnson, por exemplo, não restou sequer uma única foto. Como o filme se propôs a reencenar cenas da vida dos músicos, esse detalhe adicionou um desafio e uma dose de responsabilidade.
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