Helena Meireles é uma cabocla nascida numa fazenda no Pantanal do Mato Grosso do Sul, filha de gente pobre, que teve uma infância dura e triste, com muito trabalho e privações. Ela cresceu rodeada de peões, comitivas e violeiros, fascinada pelas violas caipiras. Sua família não permitia que aprendesse a tocar, o que acabou fazendo por conta própria, às escondidas, e não demorou muito ficou conhecida entre os boiadeiros da região.
Ela casou nova pra sair de casa, mas não deu certo. Abandonou o marido pouco tempo depois para juntar-se a um paraguaio que tocava violão e violino. Separou-se novamente, pois o achou muito mulherengo. Um dia deu tchau, e disse que tava indo morar numa zona, lá ela podia tocar sua viola, ter comida e estadia.
''Eu era muito boba, e quem me ensinou tudo da vida foram as prostitutas. Fui mulher de zona, mas era de muito respeito. Não ria pra ninguém, só tocava e bebia. Minha maior alegria era com a minha música.'' Ela tocou muito tempo pra peãozada que parava no Porto XV e, segundo ela, com a modernização, chegou o caminhão, acabou a comitiva pra carregar o gado e o movimento foi diminuindo.
Resolveu sair da zona com um companheiro, e está com ele há 43 anos. Ela nunca estudou nada. Aprendeu a assinar o nome pra evitar a vergonha de ficar manchando o dedão.
Depois de desaparecer por mais de 30 anos, ela foi encontrada bastante doente por uma irmã, que a levou para São Paulo. Helena já era avó quando foi ''descoberta'' pela mídia paulistana a partir de uma matéria elogiosa na revista norte-americana ''Guitar Player'' destacando-a como uma das 100 melhores do mundo e recebeu o prêmio Spot Ligth Artist, por sua atuação nas violas de 6, 8, 10 e 12 cordas. Em companhia de outros do naipe de B.B. King, Eric Clapton, Jeff Beck e John McLaughlin.
Helena percorreu um caminho penoso até chegar a fama, três CDs foram gravados (''Helena Meireles'' em 94, ''Flor da Guavira'' em 96 e ''Raiz Pantaneira'' em 97) , fez apresentações em festivais de jazz e turnês internacionais, além de se apresentar ao lado de importantes músicos do Brasil e exterior.
Helena Meirelles completou 80 anos no dia 13 de agosto e foi homenageada com o lançamento do filme-documentário ''Helena Meirelles, A Dama da Viola'' em Campo Grande. Produção e direção do cineasta carioca Francisco de Paula.
Num Brasil acostumado aos ''caipiras de butique'', Helena Meireles é de uma autenticidade difícil de digerir. Nela, nada aspira a parecer ''artístico'', muito diferente desses ''sucessos produzidos'' hoje em dia, todos eles com seus devidos prazos de validade. Tudo nela é simplesmente humano, autêntico, e é justamente aí que reside toda a força da sua arte. Assim, sua viola vai abrindo as porteiras da vida.
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