Na semana passada, o blues reinou durante quatro dias de festival, com mais de 6,5 mil pessoas desfrutando de diferentes shows de um único gênero. Os brasileiros anfitriões da festa não deixaram por menos, promoveram um intercâmbio musical trazendo momentos mágicos com velhos e novos conhecidos que vieram de fora e comprovaram que o blues brasuca é feito com muito feeling.
Em Porto Alegre, a sensação foi a apresentação de Lucky Peterson. O guitarrista hipinotizou a platéia, que não tirou os olhos do palco até a última nota tocada por Lucky, às duas da manhã.
Entre os destaques do festival está a apresentação da Natu Nobilis Blues Band e seu convidado especial - o clarinetista Paulo Moura, que distribuiu simpatia e conferiu toques de jazz e música brasileira ao blues.
Em Florianópolis, o blues também rolou em grande estilo, com uma canja mais que especial - Big Chico, Sergio Duarte, Lucky Peterson e o guitarrista e nosso mestre André Christovam, que só param de tocar às 4h30 da manhã.
Em Curitiba um time de craques subiu ao palco reunindo feras como Flávio Guimarães, Otávio Rocha, Nelson Faria e Paulo Moura. Trazendo um time desses não é difícil de dizer que ia ser fantástico, mas o que talvez nem eles esperam era uma platéia tão empolgada. Mais no terreno do jazz do que do blues eles foram sublimes, engrossaram o caldo trazendo como resultado uma música de extrema qualidade e competência, às vezes até um pouco intelectual demais para passear no pântano blueseiro. Foi uma aula de timbres, e bom gosto nas bases e nos solos.
Big Chico ofereceu entretenimento, informação musical, coesão, ousadia e uma série interminável de pequenas surpresas. Visivelmente empolgado fez uma apresentação memorável com uma performance que fluia recebendo de sua banda a cama perfeita para ele deitar e rolar com suas gaitas.
A dupla de guitarristas André Bordinhon e Lancaster foram os mais nobres representantes do blues brasileiro, eles deram um suporte impecável quando subiu ao palco Deacon Jones, que mostrou que não foi à toa que ele viveu o blues sua vida inteira. Ele me disse pessoalmente que já havia tocado com grandes guitarristas, mas que tinha se surpreendido com esses brasileiros.
Deacon Jones foi o ponto alto da festa, além de sempre manter uma sonoridade do genuíno blues, ele fez um solo sentando sobre as teclas de seu órgão Hammond B3, a platéia delirou.
O gaiteiro Sérgio Duarte, ajudado por um naipe de metais e uma super banda, conseguiu deixar ainda mais energética a noite com sua fórmula de incendiar almas por meio do blues.
A banda curitibana Blues Del Fuego, além de composições próprias em inglês, também tocou standards do blues americano reproduzindo um som autêntico e muito original.
Lucky Peterson, com uma guitarra modelo Telecaster pendurada no pescoço, não deixou pedra sobre pedra, um dos mais esperatados da noite superou todas as expectativas com uma sonoridade encorpada e definida. Penguntei como era para ele estar no Brasil, e ele me disse que se sentia orgulhoso de ter sido convidado para estar participando do maior evento do calendário blueseiro do Hemisfério Sul.
Débora Colemnan imprimiu ritmo, sensibilidade e fascínio ao blues, mostrando seu talento tanto nos vocais, quanto nas cordas da guitarra. O encerramento do festival teve uma canja do clarinetista Paulo Moura no show de Deborah Coleman, uma mistura que mostrou que o blues não tem fronteiras, o público presente ficou encantado. Quando eu a questionei se existe algum preconceito pelo fato de ela ser uma guitarrista mulher no meio de tantos homens ela me disse: ''Se existe algum preconceito ele acaba no palco''
Em geral, todos mostraram que a força deste estilo, que às vezes parece esquecido, não vai morrer tão cedo.
Agora é só contar os dias para o ano que vem, e quem quiser conferir os melhores momentos é só clicar www.natublues.com.br
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e colaborador da Folha.
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