BLUES - As transformações do blues e do mundo negro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de julho de 2005
Kiko Jozzolino<br> Especial para a Folha2 
Se os Estados Unidos só entraram na guerra em dezembro de 1941, sua economia tinha sido progressivamente reorganizada para essa eventualidade a partir de 1938-1939. A primeira consequência visível da guerra sobre a música americana, e portanto sobre o blues, foi a decisão de suspender a gravação de discos (Petrillo's ban) tomada em 1943 pelo governo federal, por razões de economia de matéria prima.
No que diz respeito ao blues, o Petrillo's ban, que permaneceu mais ou menos rigoroso de 1943 a 1945, marcou de fato o dobre fúnebre comercial da música do pré-guerra, fosse o dedicado country-blues ou o dançante Bluebird blues.
Com raras exceções como Sonny Boy Williason, Tampa Red, Arthur Big Boy Crudup, que prepararam a transição, a maior parte dos bluesmen de antes da guerra desapareceram progressivamente, tentando em vão seguir a corrente.
Essa corrente foi inicialmente, e em todos os sentidos, elétrica. A partir do fim dos anos 30, vários guitarristas de Jazz tinham experimentado a amplificação elétrica. Em 1936 Floyd Smith gravou o primeiro blues com guitarra elétrica Floyd's guitars blues, dando a esse solo um volume e clareza que pouquíssimos guitarristas acústicos tinham conseguido obter. O uso da guitarra elétrica tornou-se quase geral no blues a partir de 1945, permitindo aos músicos uma multiplicação de sonoridades e uma diversificação de efeitos jamais atingidos até então.
Assistimos a uma grande oferta da invenção, da imaginação , da criatividade, e as possibilidades da guitarra blues parecerem tão infinitas, tornando a dar-lhe, de qualquer maneira, a proeminência que as necessidades da acústica lhe haviam feito perder em favor do piano. O piano até então indispensável em todas as orquestras de blues, encontrava-se cada vez mais renegado a segundo plano, e nada poderia frear sua desgraça, a não ser, muito mais tarde, e em fraca medida, a invenção do órgão e do piano elétrico.
Em Chicago e em Memphins, a gaita se impôs de modo inesperado como um elemento dominante do blues orquestral. Esse frágil e queixoso instrumento tornou-se, pela graça da amplificação elétrica e nas mãos de Litle Walter, Sonny Boy Williamson, Big Walter Horton, um temível concorrente do bem mais oneroso saxofone. A sonoridade que esses grandes criadores inventaram nesse modesto instrumento foi, em todo caso, uma das contribuições mais originais e mais influentes do blues a música do pós-guerra.
Essas novas sonoridades elétricas mudaram consideravelmente o blues e permitiram a novos migrantes negros encontrarem nelas o justo reflexo de suas preocupações e de seu modo de vida, sempre conservando as formas essenciais desta música.
A importância dessa profusão musical foi, felizmente, sentida por pequenos produtores independentes. Eles viviam, em geral, em bairros negros ou neles possuíam interesses (tabernas, lojas de discos, bazares) e alguns (e isso também é uma novidade) Bob Geddins, Vivian Carter eram negros. Todos estavam aptos a medir a popularidade de alguns novos músicos negros junto a seus compatriotas e tentaram então gravá-los. No início tinham pouco capital mas essa aventura foi viabilizada através da evolução das técnicas de gravação e de fabricação de discos. O uso da fita magnética, a aparição do cloreto de vinil diminuiu consideravelmente os custos da produção.
E, assim, esse novo blues do pós-guerra foi captado por uma multidão de pequenos produtores que, na mesma proporção criaram marcas registradas algumas tornaram-se grandes companhias.
BLUE NOTES


