Um enviado dos deuses que ajudou a inventar o rock-and-roll, ou a criatura possuída que espancava Tina Turner? Ike Turner, aos 73 anos de idade, ainda vive entre os louros por ter gravado ''Rocket 88'' em 1951 - três anos antes do surgimento de Elvis Presley - e a maldição que Tina lhe rogou desde que o casal se separou entre tapas e pontapés no final dos anos 60.
Ike vive bem na Califórnia e sem pesos na consciência. ''Com certeza eu dei uns tapas na Tina. Nós brigávamos e houve vezes em que eu acertei socos nela sem pensar. Mas nunca a espanquei.'' A editora brasileira Landscape lançou seu livro ''A Verdadeira História Que Nunca Foi Contada Sobre Tina Turner'' (313 páginas, R$ 39,90) com um torpedo atrás do outro sobre os barracos com a ex-mulher, as drogas que o jogaram no fundo do poço, as injustiças que os brancos fizeram com os negros quando criaram o rock and roll.
O livro de Ike Turner conta a sua versão sobre o período em que esteve casado com Tina Turner, expõe fatos e fotos da super estrela, com revelações surpreendentes.
Ike se retrata com opiniões nada amistosas sobre Elvis Presley - ''ele foi o primeiro a roubar a música dos negros'' - e foi imprevisível ao falar de Tina Turner: ''Ainda quero fazer um dueto com ela. Faríamos muito sucesso''. Seu maior fracasso? ''Foram as drogas. Minha carreira estaria hoje muito, muuuito melhor.''
Ike Turner guarda mágoas por não ser citado na história do rock com a mesma frequência de músicos como Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry ou o próprio Elvis Presley. Afinal, foram ele e os instrumentisttas de sua banda os primeiros a darem forma ao rock em uma noite de 1951. ''Rocket 88'' nasceu dentro de um carro, quando o grupo viajava, e seria reconhecida como o primeiro rock da história. ''Eu não tinha a mínima idéia do que estava fazendo naquela noite. Não sabia que seria chamado de 'o primeiro roqueiro da história'. Mas acredito que conseguimos mesmo algo novo naquela noite.''
Elvis Presley seria descoberto em 1954 pelo empresário Sun Phillips e, naturalmente, passaria a liderar a revolução musical do final dos anos 50. Ike metralha a imagem mitológica perpetuada do roqueiro de Memphis com tiros de grosso calibre: ''Elvis Presley não foi tudo isso. Ele roubou os negros e me copiou para fazer, por exemplo, 'Blue Suede Shoes'. Ele imitou uma porção de coisas que nós, negros, fazíamos.''
A língua de Ike fica menos ágil quando o assunto é Tina Turner. No livro, ele é enfático: ''Tina Turner não gosta de negros. Ela esquece que é negra.'' Questionado a possibilidade de algum ''arrependimento'' por ter descoberto e ensinado sua diva a cantar, responde: ''Não, não me arrependo de nada. Ela fez parte de minha vida, e de uma boa parte de minha vida. Gostaria de gravar um dueto com ela. Tenho certeza de que temos coisas que as pessoas adorariam se vissem.''
Antes terá de convencer a mulher em quem, segundo Ike mesmo conta em seu livro, chegou a bater com um sapato. ''Uma vez bati nela com um sapato. Peguei um sapato e atirei nela. Eu era jovem e besta. Não estou justificando nada do que fiz, mas também não estou mentindo. O que fiz está feito.'' Suas outras recordações citam Tina Turner como uma das quatro mulheres que faziam revezamento em sua cama.
Ike Turner vive de bem com o que sobrou de sua carreira, entre shows na Itália, Suécia, França, Espanha, Alemanha e Noruega. Sobre o racismo que sentiu no início de sua carreira, fala com indignação. ''O racismo nos Estados Unidos de hoje é muito pior.'' Sobre se iria votar em Bush para presidente, responde: ''Odeio Bush. Essa guerra no Iraque é um erro.'' Se sossegou com as mulheres? ''Continuo o mesmo. Tenho várias.'' Sobre os tapas em Tina ele responde: ''Não gostaria de falar sobre isso. Tudo o que eu tinha a dizer está em meu livro.''
O livro de Ike que vale a pena ser lido desde que se dê alguns devidos descontos. Ele é um cara meio rancoroso, magoado e em certas horas até um pouco invejoso, é bom lembrar que o que está escrito é apenas a sua versão.

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