O médico de um garoto vesgo, albino, tímido e de dedos ossudos se preocupou com um detalhe que, perto do conjunto da obra de seu paciente, era algo insignificante. Se aquele franzino de cinco anos chamado John Dawson Winter III não parasse de tocar clarinete, sua dentição seria prejudicada. E sua saúde frágil tinha de ser poupada de tantos sopros. Foi o diagnóstico mais importante da história do blues.
O fenômeno Johnny Winter começou a nascer ali. Os pais do garoto John lhe deram uma guitarra para substituir o clarinete e transformaram sem saber o albino introvertido em um furacão. Johnny Winter, aos 60 anos e ainda mantendo o codinome ''twister'' (tornado), traz sua guitarra pela primeira vez ao Brasil. A notícia é um torpedo no meio blues. Johnny Winter, há dez anos, era noticiado como uma lenda respeitável mas corroída pelas drogas e devastada pelo albinismo. A doença das pessoas que sofrem com a falta de pigmentação na pele o estaria deixando cego rapidamente. Informações não oficiais diziam que ele chegava ao palco semi-inválido em uma cadeira de rodas, que seus dedos não respondiam mais aos comandos do cérebro, que sua voz não soltava mais os uivos dos negros desesperados.
O fato é que, embora nada tenha se confirmado, Winter já entrava para a lista de mitos enterrados quando o ainda inexplicável se realizou. Johnny Winter não vem ao Brasil como um ex-combatente em fim de carreira que precisa de dinheiro para dar alguma dignidade à sua terceira idade. O ''tornado'' chega deixando um rastro de shows pelos Estados Unidos e com um disco novo intitulado ''I'm a Bluesman'', lançado no exterior no início do ano. Seu primeiro álbum bancado por uma grande gravadora, registrado em abril de 1969, também está sendo relançado no Brasil. Ele tem a participação de seu irmão saxofonista Edgar Winter e dos baixistas Willie Dixon, a lenda, e Tommy Shannon, a ''parede'' que formaria anos mais tarde com o baterista Chris Layton a Double Trouble, banda de Stevie Ray Vaughan.
Winter mostrará músicas inéditas de ''I'm a Bluesman'', seu primeiro disco depois de oito anos de reclusão e drogas, e suas lendárias regravações, como a que fez para ''Jumping Jack Flash'' nos anos 70. As primeiras informações são de que seu show será como nos velhos tempos em que surgiu por bares dos Estados Unidos. Ele estará acompanhado por um quarteto básico, provavelmente o mesmo que o tem seguido pela turnê americana. Seus parceiros do momento são o baixista Scott Sprayor, o baterista Wayne June, o segundo guitarrista Mike Welch e Reese Wynans, tecladista que também integrou o grupo de Stevie Ray Vaughan nos anos 80.
As perguntas são se Johnny Winter está em forma. Se seus dedos riscam o braço da guitarra com a mesma ferocidade que riscavam nos anos 70. Se sua voz ainda sai rasgada e sustenta os mesmos agudos sem desafinar. As aparições de Winter no exterior têm rendido elogios. Músicas como ''Shakedown'' e ''Pack Your Bags'', ambas do disco novo, viram destaque onde são interpretadas.
Se depender da disposição que os 60 anos do guitarrista já poderiam ter abalado, ele estará dignamente de pé durante toda a apresentação.

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