Nascido no auge da segregação racial americana, em 23 de setembro de 1930, Ray Charles Robinson, morreu aos 73 anos, na manhã do último dia 10, em sua casa em Beverly Hills, Califórnia, depois de uma prolongada batalha contra uma doença hepática, deixando de herança uma obra que não se apagará com o tempo.
  Ele foi criado em Greenville, Flórida, por sua mãe e a primeira esposa de seu pai. Sua mãe lavava roupa para pagar as contas e, aos 5 anos de idade, viu seu irmão mais velho se afogar em uma banheira. No ano seguinte, ele perdeu a visão por causa da glaucoma. Aos 7 anos, sua mãe o matriculou na Escola para Surdos e Cegos, St. Augustine, onde ele aprendeu a ler e a escrever música em Braille, a tocar piano, sax alto, órgão, trompete e clarineta. Pianista virtuoso, ele tocava de tudo, country, jazz, big band e blues, com um estilo tão inconfundível quanto sua voz.
  Devastado aos 15 anos pela morte de sua mãe, ele abandonou a escola e seguiu para Jacksonville, onde começou sua carreira na música. Charles ajudou a revolucionar a música popular nos anos 1950 criando o estilo soul, abrindo o caminho para cantores como Elvis Presley, Buddy Holly, Chuck Berry e Sam Cooke, dando início ao que mais tarde iria se tornar o rock’n’roll. Seu primeiro sucesso foi ‘‘Hallelujah! I Love Her So’’, gravada em 1956, e um de seus primeiros ídolos foi Nat King Cole, que influenciou seu estilo no começo da carreira.
  Foi um dos primeiros a misturar o estilo vocal gospel com blues e o rock. Ray Charles foi sem dúvida uma das maiores figuras da música americana desde os anos 50. Seu hit ‘‘I Got A Woman’’ é considerado a chave que abriu a porta para um cruzamento da herança musical negra na corrente musical americana branca.
  Em 1964, em Boston, viciado em drogas, foi preso por posse de heroína . Em 1965 ele parou de fazer turnês para tentar se livrar do ‘‘hábito’’. Conseguiu vencer a pobreza na infância, e mais tarde também venceu o vício de heroína, tornando-se um dos cantores mais duradouros do mundo. Em 1973 ele saiu da ABC Records e criou seu próprio selo, o Crossover, produzindo e gravando seus próprios discos.
  Em 1986, Ray Charles foi homenageado pelo presidente Ronald Reagan. Mesmo assim, ele considerava a maior honra de sua vida ter sua música ‘‘Georgia On My Mind’’ adotada como canção oficial do Estado norte-americano da Geórgia. Ele também conquistou um total de 12 prêmios Grammy, nove deles entre 1960 e 1966.
  Charles teve pelo menos nove filhos com cinco mulheres diferentes. Seu casamento de 20 anos com Della, uma das Raelettes, acabou em divórcio em 1977. O último trabalho terminou de ser gravado em março e deve chegar às lojas em agosto. O disco deve se chamar ‘‘Genius Loves Company’’. O produtor do álbum John Burk chegou a declarar que Charles se sacrificou para concluir o disco. ‘‘Ele avisava que não estava se sentindo bem. Às vezes deixava o estúdio no meio da gravação e pedia para continuar outro dia’’, disse Burk. Este é um álbum de parcerias no qual Charles atua ao lado de grandes amigos como Willie Nelson, Diana Krall, Gladys Knight e Elton John.
  Chamado de ‘‘genio do soul’’, Ray Charles veio ao Brasil várias vezes. A primeira foi em 1963, voltou em 1970, depois veio para o Free Jazz Festival em 1986, voltou em 1990, tocou no Parque Ibirapuera em 1995 e em 1996 fez uma turnê pelo país.
  Um filme sobre a vida de Ray Charles tem previsão de estréia em 29 de outubro nos Estados Unidos. O longa-metragem vai contar a história do cantor desde a sua juventude, quando cantava no Sul dos EUA, até a sua ascensão como astro mundial, passando pelos diversos atritos com os executivos do ramo musical, sua luta contra o racismo, e os problemas amorosos.
  Sua última aparição em público foi em 30 de abril, ao lado de Clint Eastwood, quando assistiu a um evento no qual a Prefeitura de Los Angeles declarou monumento histórico o estúdio de gravação do cantor, construído há 40 anos. ‘‘Nasci com a música dentro de mim. É a única explicação que me ocorre’’, escreveu Charles em sua autobiografia ‘‘Brother Ray’’, escrita em 1978. ‘‘A música era parte de mim... como meu sangue. Era uma força dentro de mim quando aparecia em cena. Era uma necessidade, como a comida e o água’’.
  O Funeral de Ray Charles reuniu lendas da música como os cantores Stevie Wonder, Willie Nelson e B.B. King que realizaram na sexta passada uma homenagem a Ray Charles durante o seu funeral.
  Ray Charles morreu mas sua música não vai morrer. Era uma lenda viva e sua história se mistura com a história da música mundial.
  Obrigado Ray Charles ...

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