BLADE RUNNER - TRÊS DÉCADAS
Este é o quarto e último capítulo de uma análise sobre os bastidores das filmagens de ‘‘Blade Runner - O Caçador de Andróides’’, filme lançado há 15 anos. Já foram abordados os temas da escolha do diretor e atores e a formulação do roteiro. Aqui, as dificuldades para rodar este que viria a ser um clássico entre os filmes de ficção.
Por Marden Machado*
PARTE IV
Um novo clássico
No início de janeiro de 1981, quando tudo estava pronto para o início das filmagens, a Filmways Pictures abandona o projeto e resolve investir no filme ‘‘Um Tiro na Noite’’, de Brian dePalma. Deeley e Scott levam então o projeto a diversos estúdios, sem sucesso. Finalmente, eles conseguem chegar a um acordo envolvendo três companhias: a Ladd Company (uma produtora independente), através da Warner Bros., investiria 7,5 milhões de dólares (em troca, a Warner teria a distribuição do filme em todo o ocidente); a Shaw Brothers (uma empresa de Singapura gerenciada por Sir Run-Run Shaw, investiria outros 7,5 milhões de dólares e teria os direitos de distribuição para todo o oriente) e finalmente, a Tandem Productions (uma produtora de filmes para TV), completaria qualquer estouro no orçamento até o limite de 10% do valor estipulado, que é de 15 milhões. Na verdade, a Tandem termina investindo mais quatro milhões e deixa o orçamento final de ‘‘Blade Runner’’ em 19 milhões de dólares. As filmagens têm início no dia 09 de março de 1981 e são concluídas exatos quatro meses depois, em 09 de junho de 1981.
Ridley Scott sempre foi um diretor extremamente perfeccionista e isso fez com que ele sempre tivesse muitos atritos com a equipe técnica e o elenco, principalmente Harrison Ford. Mesmo após o término das filmagens, os problemas não acabam. Os executivos da Warner acham o resultado final bastante complicado para o grande público e, contra a vontade de Scott, fazem duas mudanças drásticas no filme: primeiro, incluem a narração de Deckard, que Harrison Ford só gravou porque estava ainda sob contrato, (com isso, a Warner achava que o filme seria melhor entendido) e cortam algumas sequências, modificando o final ambíguo e em aberto (Deckard e Rachael entrando no elevador e a porta fechando), para um final feliz em que vemos os dois dentro de um ‘‘spinner’’ (o carro voador) se dirigindo para iniciar uma nova vida no norte. Este novo final utiliza sobras da sequência de abertura de ‘‘O Iluminado’’, dirigido por Kubrick e produzido pela Warner no ano anterior. Foi esta versão que chegou aos cinemas em 1982.
Ao contrário do esperado, ‘‘Blade Runner’’ recebe críticas negativas e é um fracasso nas bilheterias americanas. Porém, cria um culto de fiéis seguidores. Quando começa a ser exibido fora dos Estados Unidos, as críticas melhoram, a bilheteria idem e o culto ainda mais. Os críticos americanos terminam por rever suas posições e finalmente dão ao filme o seu devido valor. No ano seguinte, 1983, quando ‘‘Blade Runner’’ é lançado em vídeo, o culto já está mais do que estabelecido e a partir daí a Warner não tem mais prejuízos com o filme. Daquele ano até 1990, cresce cada vez mais o apelo dos fãs para que o estúdio relance o filme nos cinemas.
Desta vez, no entanto, algo aparentemente inimaginável acontece: um estudante de cinema descobre perdido no depósito de filmes de uma universidade da Califórnia a versão original de ‘‘Blade Runner’’ e começa a exibí-la no circuito universitário. No início de 1991, a Warner é comunicada sobre as ‘‘sessões privadas’’ e recolhe todo o material.
Vendo que o interesse do público está mais que aguçado, os executivos da Warner não perdem tempo e em setembro de 1991 chamam o diretor Ridley Scott, que estava concluindo seu épico sobre o descobrimento da América, ‘‘1492 - A Conquista do Paraíso’’, e lhe dão carta branca para refazer o filme do jeito que ele queria ter feito em 1982. Scott aceita o desafio e faz todas as modificações necessárias.
A versão final do diretor (director’s cut) é lançada nos Estados Unidos em agosto de 1992, dez anos depois do primeiro lançamento, e chega ao Brasil em março de 1993. Não há mais a narração que durante muito tempo nos acostumamos a ouvir; temos novas cenas aéreas de Los Angeles; além do sonho de Deckard com o unicórnio (que sugere ser ele também um replicante) e por último, a eliminação do final feliz. O filme agora termina com Deckard e Rachael entrando no elevador e a porta fechando.
Muito mais poderia ser escrito sobre ‘‘Blade Runner’’. Os ‘‘spinners’’ e os diversos artefatos criados por Syd Mead. Os cenários futuristas desenvolvidos por Lawrence Paull e David Snyder. A trilha sonora maravilhosa composta por Vangelis. A direção primorosa de Ridley Scott. O desempenho inspirado de todo o elenco. O roteiro impecável de Hampton Fancher e David Peoples. A fotografia deslumbrante de Jordan Cronenweth. Os efeitos especiais sutis de Douglas Trumbull. A montagem precisa de Terry Rawlings. A produção esmerada de Michael Deeley e todas as implicações que este trabalho conjunto gerou no entendimento dos cinéfilos ao redor do mundo. É difícil encontrar dois fãs com a mesma visão. Cada um entende o filme ao seu modo, e não adianta argumentar.
Indiscutivelmente, ‘‘Blade Runner’’ é o filme mais influente dos últimos 15 anos. Basta observar o que foi produzido a partir de 1982, não só em filme, mas também em histórias-em-quadrinhos. Alguns exemplos: ‘‘RoboCop’’, ‘‘O Cavaleiro das Trevas’’ (HQ de Frank Miller), os dois primeiros filmes da série ‘‘Batman’’, ‘‘Chuva Negra’’ (do próprio Scott), ‘‘O Quinto Elemento’’, ‘‘Juiz Dredd’’ (HQ e filme), ‘‘Estranhos Prazeres’’ e tantos outros. Com seu visual inovador, arrojado e criativo, ‘‘Blade Runner’’ é um clássico, um autêntico filme de autor, cheio de pequenos detalhes que só quem o viu repetidas vezes e com bastante atenção é capaz de detectar na totalidade e sentir o que ele realmente é: uma experiência única.
* Marden Machado é jornalista e cinemaníaco. Já viu ‘‘Blade Runner’’ 54 vezes (38 vezes a versão da Warner e 16 vezes a versão do diretor) e antes que alguém pergunte, ele prefere a versão do diretor.

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