BLADE RUNNERTRÊS DÉCADAS
Seguimos com o segundo capítulo - de um total de quatro - sobre a história e os bastidores do filme ‘‘Blade Runner - O Caçador de Andróides’’. Aqui, veja a definição do nome e detalhes do roteiro
Marden Machado *

PARTE II
O filme
toma forma
Chegamos então a 1980. O livro de Philip K. Dick, lançado há quase 12 anos, tem um roteiro, um produtor e um diretor. Falta apenas definir o elenco e conseguir o dinheiro necessário com algum estúdio. Nessa época, eles chegam a assinar um contrato com a Filmways Pictures, que garante um orçamento de 13 milhões de dólares para a produção do filme.
O diretor Ridley Scott resolve fazer mudanças no roteiro. Uma das coisas que não o agrada é o termo ‘‘detetive’’. Ele argumenta com Fancher que é um termo muito comum em tramas policiais e já que o filme se propõe a mostrar uma visão diferente do futuro, teria que ter um nome novo para o trabalho que Deckard faz.
O roteirista Hampton Fancher lembra então de um livro do escritor ‘‘beatnik’’ William Burroughs, entitulado ‘‘Blade Runner’’. Deeley entra em contato com os advogados de Burroughs e compra o uso do título do livro para o filme. Pouco depois, eles descobrem que existe um outro livro de ficção-científica escrito por Alan E. Nourse que também faz uso desse termo.
Ridley Scott resolve então chamar seu filme de ‘‘Gotham City’’, no entanto, Bob Kane, criador do Batman e da cidade de Gotham City, proíbe-o terminantemente de usar esse título. Os produtores acabam negociando com todas as pessoas envolvidas na posse do nome ‘‘Blade Runner’’ e, a partir de então, este passa a ser o nome definitivo do filme.
Outra alteração feita nessa época diz respeito ao ano em que se desenvolve a ação da trama. Estamos ainda em meados de 1980. No livro de Philip K. Dick, a ação se passa em 1992, ou seja, pouco mais de dez anos no futuro. Era uma data próxima demais. Por segurança, eles decidem transferir a história para o ano de 2020 e logo depois, definitivamente, para novembro de 2019. Eles temiam que o ano 2020 possa causar alguma confusão com a ‘‘visão 20/20’’, um termo médico usado pelos oftalmologistas para se referir à visão perfeita. A cidade também é mudada: ao invés de San Francisco, eles optam por Los Angeles.
Porém, uma importante e inesperada mudança ainda estava por ocorrer: Hampton Fancher, a pessoa que há mais tempo estava envolvida com o projeto, por não mais suportar as pressões de Ridley Scott para fazer pequenas alterações em seu próprio roteiro, abandona o grupo em novembro de 1980.
O irmão caçula de Scott, o também diretor Tony Scott (‘‘Fome de Viver’’, ‘‘Maré Vermelha’’), indica o premiado documentarista e também roteirista David Webb Peoples (que mais tarde assinaria os roteiros de ‘‘Os Imperdoáveis’’ e ‘‘Os 12 Macacos’’). Peoples recebe o último tratamento feito por Fancher e diz a Deeley e Scott que não há o que modificar, pois, na sua opinião, o roteiro está perfeito. Mesmo assim, Scott fala sobre suas idéias e diz que ele deveria criar uma nova palavra para substituir o termo ‘‘andróide’’, já que se tratava de um nome muito conhecido nos livros de ficção-científica. Dias depois, lendo um trabalho de ciências de sua filha, que tratava de duplicação celular, Peoples lê o termo ‘‘replicating’’ e cria então o nome ‘‘replicant’’ (replicante), que Ridley adota de imediato.
* Marden Machado é jornalista e cinemaníaco. Já viu ‘‘Blade Runner’’ 54 vezes (38 vezes a versão da Warner e 16 vezes a versão do diretor) e antes que alguém pergunte, ele prefere a versão do diretor.
* Na próxima sexta-feira, o terceiro capítulo: ‘‘O Elenco Perfeito’’.

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