Blade Runner - Três décadas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de abril de 1998
Por Marden Machado* PARTE I Primeiro surge o verbo 
Setembro de 1982. A Warner começa a exibir o trailler do mais novo trabalho de Ridley Scott, diretor britânico, egresso da publicidade, que três anos antes havia adquirido fama mundial com o primeiro filme da série Alien. Com o subtítulo de O Caçador de Andróides, os primeiros cartazes de Blade Runner são colocados nos cinemas brasileiros e trazem uma frase que aguça a curiosidade dos amantes da boa ficção-científica: O homem fez o homem à sua imagem e semelhança. Agora o problema é seu!. Aliado a um trailler impactante que mostra uma Los Angeles caótica no ano de 2019, Blade Runner, antes mesmo de seu lançamento nacional já desperta o interesse de muitos cinéfilos, pois oferece em um mesmo pacote quatro fatores importantíssimos: 1) É dirigido por um especialista no gênero; 2) Tem um ator carismático no papel principal (Harrison Ford, logo após o estouro do primeiro Indiana Jones); 3) Seu roteiro baseia-se no livro de um excelente autor de ficção-científica e; 4) Um orçamento generoso (foi na época o mais caro filme produzido no gênero). O momento tão aguardado chega: Natal de 1982. Blade Runner é finalmente lançado no Brasil.
Convém agora voltarmos um pouco mais no tempo e revermos toda a história por trás desse marco do cinema. Blade Runner é baseado em um livro de Philip K. Dick, Do Androids Dream of Eletric Sheap? (algo como Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), publicado em 1968, nos Estados Unidos e lançado no Brasil somente em 1983, aproveitando a estréia do filme. O livro é bastante diferente do filme. Nele, a ação se passa no ano de 1992, em San Francisco, não em 2019, em Los Angeles. A Terra se recupera de uma guerra nuclear que extinguiu todos os animais do planeta. Os humanos mais ricos foram morar em colônias espaciais, os menos afortunados ficaram e vivem agora em um mundo caótico, poluído e superpovoado, enfrentando constantes chuvas ácidas e uma sensação de noite eterna. Deckard, é um funcionário da Polícia de San Francisco, casado com Iran e que antes da guerra tinha uma ovelha de estimação. Quando oito andróides Nexus 6 fogem para a Terra, ele é convocado para caçá-los e só aceita o trabalho por causa da recompensa. Ele planeja comprar uma ovelha elétrica.
O livro de Philip K. Dick logo interessou o pessoal de Hollywood. Em 1969, o diretor estreante Martin Scorsese (ele mesmo) e Jay Cocks, um jovem crítico e roteirista, demonstraram o desejo de levar a história para a tela grande, porém, terminou não dando certo. Somente em 1974, os direitos do livro foram comprados por Herb Jaffe. Seu filho, Robert Jaffe, escreveu a primeira adaptação cinematográfica. O roteiro desagradou completamente o autor, pois simplificou demais a trama do livro. Mais uma vez o projeto não decolou. Três anos mais tarde, em 1977, os Jaffe abrem mão dos direitos do livro e aparece o roteirista Hampton Fancher, que tenta adquirí-los e não consegue. Pouco tempo depois, no mesmo ano, Fancher fala sobre o livro para um amigo seu, Brian Kelly, que age prontamente e consegue comprar os direitos do livro para o cinema.
Kelly envia uma cópia do livro para o produtor inglês Michael Deeley, que adora o material, mas, considera-o infilmável. É bom lembrar que estamos em 1977, ano do lançamento de Guerra nas Estrelas, um ano em que todos os estúdios estavam procurando por um filme de ficçãocientífica que pudesse repetir o sucesso da saga criada por George Lucas. Kelly procura Fancher e pede a ele que escreva um roteiro baseado no livro. Fancher recusa o convite e termina convencido por uma amiga, a atriz Barbara Hershey (coincidentemente, a mesma pessoa que havia convencido Martin Scorsese a adaptar para o cinema o livro A Última Tentação de Cristo). Hampton Fancher passa o ano inteiro de 1978 trabalhando no roteiro que, inicialmente, manteve o título do livro: Do Androids Dream of Eletric Sheap?. Brian Kelly procura Michael Deeley novamente e lhe entrega o roteiro de Hampton Fancher. Dois dias depois, Deeley telefona para Kelly e assume a produção do filme.
Deeley inicia seus contatos para a obtenção de dinheiro junto aos estúdios. No início de 1979, o título do roteiro é mudado para Android e pouco depois, para Mechanismo. Michael Deeley ganha um Oscar (melhor filme para O Franco Atirador, de Michael Cimino, que havia produzido) e começa a procurar um diretor para o filme. Ele tem quatro nomes em mente: Ridley (Alien) Scott, Adrian (Atração Fatal) Lyne, Michael (Nell) Apted e Bruce (Conduzindo Miss Daisy) Beresford. Nenhum deles, naquele momento, estava disponível para se envolver com um novo projeto. Aparece então o veterano Robert Mulligan, diretor de O Sol é Para Todos e Houve Uma Vez um Verão. Mais uma vez o título do roteiro é mudado, agora para Dangerous Days (Dias Perigosos). Mulligan fica envolvido com o projeto até o final de 1979, tendo inclusive trabalhado com Fancher em algumas alterações na trama. A Universal e a CBS Films demonstram interesse, mas terminam desistindo por causa dos custos.
Nesse meio tempo, o roteiro de Fancher, sem as alterações feitas com Mulligan, chega às mãos do diretor Ridley Scott, que havia concluído Alien. Ele fica empolgado com a história, mas está bastante ocupado trabalhando na adaptação do romance de Frank Herbert, Duna, que termina sendo dirigido em 1984 por David (Veludo Azul) Lynch. Deeley, com a ajuda de Ivor Powell, um grande amigo de Scott que havia trabalhado com ele na produção de Alien, consegue finalmente convencê-lo a assumir a direção do projeto Dangerous Days.


