''Blade II'' traz de volta o vampiro do bem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Há quatro anos, Blade, a história de um herói marginal, o vampiro que renegava o instinto assassino lutando contra os de sua espécie, se converteu em inesperado fenômeno de bilheteria. O retumbante fracasso de crítica não impediu que o filme assinado por um tal Stephen Norrington tivesse uma sequência, Blade II, a partir de hoje em lançamento nas telas brasileiras (veja a programação de cinema na página 2). Credenciado por trabalhos sempre na fronteira do gótico e do fantástico (Mimic, Cronos, A Espinha do Diabo), o diretor mexicano Guillermo del Toro foi chamado para retomar o tema e o personagem. E como era mais ou menos previsível, não saiu incólume da empreitada.
Que uma nova raça de vampiros se dedique a devorar tradicionais colegas frequentadores de jugulares, além de nutrir-se com iguarias mortais, é uma exceção, um rasgo de originalidade num filme de medo. E isto acontece em Blade II, continuação das aventuras do bom vampiro, agora dedicado a defender a raça humana desta nova espécie de morcegos modernos mestres na esquiva de estacas mortais, graças ao know how de todas as modalidades imagináveis (ou não) de artes marciais. O início da trama, localizado num banco de sangue de Praga, se oferece promissor. Mas minutos mais tarde, por óbvia imposição da caixa registradora da indústria, a tela é inundada por violência visual e sonora, compulsiva e gratuita, imposta durante combates em série. Quem comanda as ações são os achados tecnológicos e programáticos dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos tempos, desde a irrecusável penumbra úmida da série Batman até os contorsionismos circenses de Matrix, passando obrigatoriamente pelos coreografados confrontos aéreos de O Tigre e o Dragão. Além de um saco de músculos chamado Wesley Snipes - o ator, quem diria, já foi o melhor no Festival de Veneza
Em linhas gerais, este Blade II é tão anódino, barulhento e previsível quanto seu modelo original ou qualquer outra proposta rotineira de Hollywood para o gênero. Esporadicamente, no entanto, surgem aqui e ali lampejos de uma ironia sutil, astuciosa, provocadora e visualmente estimulante, ou até mesmo vislumbres de um pálido lirismo que toma conta da ação - de resto claras manifestações da personalidade de Guillermo del Toro, talvez o mais pessoal e interessante cultor deste maltratado fantástico contemporâneo. Por estas (poucas) soluções de mise-en-scSne, Blade II fica um furo acima da mediocridade absoluta.


