BLACK MUSIC NO PEDAÇO
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Um revival da black music brasileira ronda o mercado. A tendência é flagrante e pode se tornar tanto o modismo fonográfico da próxima estação quanto estabelecer uma retomada do movimento que estourou nas paradas na década de 70.
O CD Soul Brasileiro, que está chegando às lojas pela gravadora Universal, faz uma retrospectiva da história toda reunindo 14 canções de artistas como Tim Maia, Jorge Ben, Cassiano, Gerson Combo e Ed Motta. Mas a badalação em torno da negritude pop tropical, vai além da coletânea.
Não é de hoje que a imprensa cultural tem levantado a bola do gênero em longas reportagens. Até a revista Showbizz, dedicada à cobertura musical mais imediata, andou resgatando a trajetória dos pioneiros do soul e do funk em duas edições. Uma delas saiu no último mês de maio com oito páginas.
Entre os artistas, intensificam-se as homenagens e projetos de discos. Cassiano, autor da memorável A Lua e Eu, é um dos mais reverenciados pelos novos soul brothers. Ed Motta foi convocado pela gravadora Dubas para organizar uma antologia do compositor, com previsão de lançamento para setembro.
O disco vai reunir faixas dos três primeiros LPs do artista: Imagem e Som (1971), Apresentamos Nosso Cassiano (1973) e Cuban Soul (1976). Depois da coletânea, a gravadora planeja reeditar em CD a discografia integral do músico, que lançou seu último álbum em 1991. Entusiasta de Cassiano, o crítico Nelson Motta escreveu certa vez que ele e Tim Maia modernizaram a música brasileira no início dos anos 70 da mesma forma que João Gilberto e Tom Jobim na década de 50.
Além da antologia, sua reabilitação vai ganhar impulso também através da comunidade hip hop. O grupo Racionais MCs o convidou para participar de uma das faixas do novo disco, que começa a ser gravado este mês. Ao lado de Cassiano, outro desbravador do soul verde-amarelo que volta à cena é Gerson King Combo, cuja voz e ginga nos dias gloriosos impressinou James Brown e Stevie Wonder.
O artista virou ídolo dos frequentadores de festas cariocas de hip hop, nas quais costuma dar canjas evocando seus sucessos. King lançou seu último trabalho há mais de 20 anos. Agora está saindo das sombras. No próximo mês, entra em estúdio para gravar um novo repertório, que vai mesclar faixas inéditas e remixes de antigas composições.
O álbum será produzido pelo selo independente União de Idéias, especializado em hip hop. A idéia é lançar o disco no dia 30 de novembro, quando Gerson festeja 55 anos de idade. Paralelamente, a gravadora Trama aposta na nova safra do soul brazuca. Nesta temporada, lançou quase que simultaneamente a coletânea Artistas Reunidos e os CDs de Pedro Mariano, Max de Castro e Simoninha todos herdeiros do suingue black.
Aos poucos, cantoras como Andréa Dutra, Arícia Mess e Hannah Lima também começam a cavar espaço na vertente abraçando o legado de Lady Zu, a rainha das pistas nos bons tempos. O lançamento da coletânea Soul Brasileiro vem reforçar a tendência. O disco saca do baú três jóias de Jorge Ben: Ponta-de-Lança Africano/Umbabarauma (regravada recentemente pela banda de rock pesado Soulfly), O Homem da Gravata Florida e Take It Easy My Brother Charles.
Repõe em circulação De Bar em Bar de Cassiano, Andando nos Trilhos de Gerson King Combo, Estrada Errada de Hyldon e a já clássica Chocolate de Tim Maia. Lembra de Luiz Melodia em Sangue não Nega. Traz Ed Motta com as sacolejantes Fora da Lei e Vamos Dançar. Até aí, seguindo uma ordem cronológica, tudo vai relativamente bem.
Ao alcançar os dias atuais, porém, a qualidade do CD desce alguns degraus ao privilegiar o funk melodioso das duplas Claudinho e Buchecha (Quero Te Encontrar e Tempos Modernos) e Márcio & Goró (Sol de Verão), além de incluir a mistureba titubeante do grupo Faroca Carioca (A Lei da Bala).
A seleção foi feita pelo produtor Carlos Alberto Sion, que garimpou as faixas nos arquivos da gravadora Universal, da qual faz parte o catálogo empoeirado da extinta PolyGram. Ficaram de fora expoentes da corrente como Trio Ternura, Carlos Dafé, Banda Black Rio, Banda Brylho, Paulo Diniz, Toni Tornado, Wilson Simonal e a já citada Lady Zu.
Mesmo assim, apresenta uma revisão razoável de uma linhagem musical pouco examinada pelos estudiosos.


