BLACK MUSIC NAS VEIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O disco de estréia foi acolhido com reservas pela crítica. Mas não faltaram elogios ao intérprete. Três anos depois, Pedro Mariano (agora sem o Camargo) retorna ao mercado fonográfico com Voz no Ouvido, no qual estabelece de vez sua reputação como uma das vozes mais bem-dotadas da nova geração.
O disco chega ao público pela gravadora Trama, a casa dos novos soul man brazucas. Pedro segue a linhagem black a exemplo de Max de Castro, Simoninha e Jairzinho (este, aliás, assina quatro faixas do CD). O material lateja soul music, funk e r&b. Até o hip hop se faz presente em duas composições, que traz participação dos rappers Camorra e Criminal D.
O cantor, filho de Elis Regina e do compositor e produtor César Camargo Mariano, investe na negritude pop carioca com estilo nas faixas Postal (de Cassiano), Preciso ser Amado (Tim Maia), Profissionalismo é Isso Aí (Banda Black Rio), Livre para Viver (Cláudio Zoli e Bernardo Vilhena), Sorriso Falso (Lincoln Olivetti) e Tem que Ser Agora (Gastão Lamounier).
O charm (o soul dos cariocas) predomina no repertório, onde até eventuais contrastes como Tem Dó (de Baden Powell e Vinícius de Moraes) e Fazendo Música, Jogando Bola (Pepeu Gomes) recebem tratamento suingado. Na primeira, o cantor remete de imediato a Djavan. É a faixa rivalizando talvez com Sorriso Falso e Grande Amor em que o intérprete mais se sobressai.
Pedro garimpou a música de um velho long-play do Som 3, grupo de bossa-jazz dos anos 60 fundado por seu pai que, em Voz no Ouvido, toca teclados em todas as faixas além de cuidar dos arranjos. Mas a música teve uma gravação também na voz de Wilson Simonal, o que só acrescenta mais tempero no caldo de conexões black do disco. A seguir, leia os principais trechos da entrevista que Pedro Camargo concedeu à Folha2.
Seu novo disco tem mais soul music que MPB. É a principal referência de seu trabalho?
Considero a black music americana a referência mais forte não só do meu trabalho como da minha vida. Nem diria referência, mas predileção. Sempre tive contatos diários com o samba, o choro, a MPB tradicinal, etc. A música brasileira é o meu grande alicerce, a fonte de minhas pesquisas. Mas na minha vida extra trabalho tive relações íntimas com o soul, o funk, o r&b, o jazz, enfim a música negra norte-americana. Os meus pais introduziram esses estilos dentro de casa, então, se você ouve um tipo de música a vida inteira, é natural que você incorpore o jeito de interpretar daquele jeito. E, além do mais, o meu timbre de voz favorece esses estilos.
Você canta músicas de expoentes da black music brasileira (Tim Maia, Cassiano e Banda Black Rio), mas canta também composições de João Bosco e Aldir Blanc, Baden Powell e Vinícius e Pepeu Gomes. Há um ponto em comum entre o soul, o funk e a música brasileira?
O soul e a música brasileira têm proximidades. São ambos gêneros sentimentais e que privilegiam a parte rítmica. São diferentes da polca ou da tarantela, porque têm esse lado de serem hipnóticos. O samba contagia em qualquer lugar do mndo, as pessoas ouvem e já começam a mexer o corpo. Com os ritmos black acontece o mesmo.
Que evolução você percebe em seu trabalho, do disco de estréia para esse segundo álbum?
O disco novo está mais homogêneo do que o primeiro. Consegui fazer com que as músicas caminhassem para o mesmo lado, que foi uma coisa que não ocorreu no trabalho anterior onde cada faixa apresentava um arranjador diferente. Na época, eu tinha consciência dessa pluralidade. Queria que as pessoas conhecessem as minhas veias, o meu jeito de cantar em vários registros. Mas acho que ficou plural demais. Para o novo disco, procurei trabalhar com uma banda fixa, participar da produção e ter apenas um arranjador. O disco está mais com a minha cara, mostra mais a minha realidade e o que vai ser daqui para frente.
Sendo um cantor, que heranças você acha que traz de sua mãe (Elis Regina)?
Acho que herdei dela a garra de cantar. Cantar para mim é mais do que uma vocação: é uma religião, uma sina, um karma. Foi uma dádiva, um dom que recebi e que eu encaro como uma missão para colocar em prática e mostrar para as pessoas. Se me privarem de cantar, eu morro. O ato de cantar é o que existe de mais próximo entre mim e ela. Ela tinha um jeito peculiar de enxergar a música. Ela se posicionava ora como a cantora que dá o seu recado, dá as cartas e é a narradora da história e ora se posicionava como um instrumento a mais da banda. É a mesma atitude das grandes cantoras de jazz. Eu procuro tirar essas lições.
Você faz parte de um grupo de artistas que está retomando a linhagem da black music brasileira. Coincidentemente, todos são filhos de artistas famosos e foram contratados pela mesma gravadora (Trama). A idéia da articulação de um movimento passa pela sua cabeça?
Todos nós caminhamos nessa direção, embora cada um puxe para sua especialidade e traga suas peculiaridades. Graças a Deus surgiu a Trama, que tem uma visão de música parecida com a nossa. Mas se você for ver os trabalhos do Max de Castro, do Simoninha ou do Jairzinho, você vai perceber que cada um direcionou suas influências para um projeto bem pessoal. Todos eles são, antes de qualquer coisa, meus amigos. Existe uma convivência de jogar bola juntos, ir ao cinema, ouvir um som. Mas não enxergo isso como um movimento, não me posiciono como alguém pertencendo a um movimento, apesar de eu achar que há muito tempo o país sofre a ausência de um movimento. Percebo que houve um certo umbiguismo na música brasileira com cada artista olhando só para seu trabalho sem manter qualquer vínculo com outros artistas. Vejo que na Bahia é diferente. Lá eles se ajudam, levantam a turma, com cada um procurando dar uma força para o outro. Eles garantem o condomínio deles a ponto de sobreviverem só com o mercado regional, sem precisar vender discos em nível nacional. Acho que se os artistas brasileiros fossem tão unidos quanto eles, os caminhos da música brasileira seriam outros.


