A redescoberta da black music brasileira tem favorecido gravações e reedições valiosas nas últimas temporadas. Sem explodir nas paradas, artistas do gênero mantêm um circuito regular de shows e bailes nas grandes capitais, atraindo não só antigos adeptos como principalmente jovens de vinte e poucos anos. Algumas gravadoras já investem na tendência. A Regata está bancando a volta ao mercado da Banda Black Rio e o disco-solo de Ivo Meirelles. E a Trama acaba de lançar o novo CD de Claudio Zoli.



A Banda Black Rio deixou de ser apenas uma legenda na enciclopédia da música popular brasileira. Mais de duas décadas depois de ser extinta, a formação tentar honrar o passado glorioso reagrupando-se em torno de Willian Magalhães, filho de Oberdan (1954-1984), fundador e líder do grupo. ‘‘Movimento’’ (Regata/Universal) mescla funk e soul temperados ao molho da ginga carioca. A seção de metais fornece a tônica nos arranjos. Uma cuíca pontua as levadas híbridas. O repertório é inédito, à exceção de ‘‘Mistérios da Raça’’, de Luiz Melodia. O disco traz participações de ilustres como Cassiano (responsável por arranjos e direção de vocais, além de cantar e assinar duas faixas), Claúdio Zoli, Liminha e Black Alien. A banda despontou durante os verões do funk e da disco music tropicais, no final dos anos 70. De seu núcleo original, restou o trombonista Lúcio Trombone. Simultaneamente a ‘‘Movimento’’, as lojas estão recebendo cópias de ‘‘Gafieira Universal’’, um dos três álbuns gravados na época-auge e que acaba de ganhar versão em CD pela gravadora BMG.



Se é possível eleger um clássico da black music verde-amarela, nos anos 80, dificilmente outra canção rouba o cetro de ‘‘Noite do Prazer’’ (‘‘A noite vai ser boa / Tudo vai rolar...), gravada pelo grupo carioca Brylho e lembrada na trilha de ‘‘Big Brother’’. Brylho era liderado por Claudio Zoli, saudado por alguns como o príncipe da soul music brasileira. Em ‘‘Na Pista’’ (Trama), ele revisa o próprio repertório, além de regravar sucessos de Tim Maia e Djavan/Caetano Veloso. O material é coeso, dançante e calcado em grooves funky. ‘‘Noite do Prazer’’, em nova versão, abre o CD sem curvar-se ao registro original. Obviamente, sai perdendo na comparação. A retrospectiva segue com ‘‘À Francesa’’, composta em parceria com Antonio Cícero e que alcançou as paradas na voz de Marina. ‘‘Cada um Cada Um (A Namoradeira)’’, de Ronaldo Barcelos, ressurge revigorada. Zoli compõe, canta e toca guitarra. Produzido por Fábio Fonseca, com quem trabalha há 20 anos, revela-se aqui uma das figuras de proa mais subestimadas de sua geração.



Ivo Meirelles batizou seu novo disco de ‘‘Samba Soul’’ (Regata/Universal). É um dos rótulos de fichário em voga, usados para classificar misturas de ritmos brasileiros com vertentes de matriz black. O ex-líder do Funk’n’Lata, contudo, parece rejeitar escaninhos de repertório enveredando por sonoridades variadas – ainda que familiares – ao longo das 13 faixas. Vacila pela heterogeneidade escorregando aqui e ali entre sambalanços jorgebenjorianos e imitações indigestas de Cazuza (ouça ‘‘O Céu Azul dos Miseráveis’’ e a balada rock ‘‘Entrincheirados num Barraco’’). Sua formação de sambista emérito da Mangueira eclode em ‘‘Samba na Ponta do P钒 (‘‘Se alguém me perguntar / onde mora o samba / digo com convicção:/ no coração de gente bamba’’), que traz participação da cantora Nanana. O discurso indignado aparece em ‘‘Tá Faltando Preto na Televisão’’ (‘‘O preto não tem um ‘talk show’ / O preto não narra o futebol / Tá sempre na cozinha, no café / Algumas exceções fortalecem a fé / Domingo à noite é genial / É a Glória em rede nacional’’).

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