Björk valoriza canções no palco
Bjöork deve trazer trazer ao Brasil um show que começa mais introspectivo, inicialmente com poucas atrações visuais. A idéia é ''treinar o ouvido'', segundo ela. Uma banda de metais acompanha a islandesa em suas apresentações, que também têm algumas participações especiais, a exemplo de Antony and the Johnsons. Das canções novas, os destaques vão para ''Earth Intruders'' e ''Declare Independence'', mas todo mundo gosta mesmo é dos hits do início da carreira solo, como ''Army of Me'' e ''Hyperballad'', todos em clima de ''rave'' no palco.
De acordo com a artista, o público do Tim Festival verá um show aperfeiçoado, no dia 26, no Rio de Janeiro; no dia 28, em São Paulo; e no dia 31, em Curitiba. A islandesa conta que está mais à vontade com os equipamentos eletrônicos e sua banda de metais ficou mais entrosada. Segunda ela, ''Volta'', seu sexto álbum de estúdio, o mais recente, até tem soado melhor nos palcos. Confira a seguir o bate-papo:
Em uma entrevista para o jornal inglês ''The Guardian'', você disse que ''música é fato'', é ''álgebra'', ''matemática'' e ''física'', pelo menos para você, enquanto que para o Antony Hegarty (Antony and the Johnsons) é uma coisa mais ''esotérica'' e ''humana''. Não existe um caminho espiritual no seu jeito de fazer música? Não há instinto?
Há sim, claro. Acho que, na verdade, dois extremos encontram-se. Na escola, crianças que gostam de matemática e física são geralmente muito boas em música. Na Islândia, pelo menos, existe o grupo das ciências e da música de um lado, e o das línguas e outras coisas inexatas. A música é matemática e, na minha opinião, é mais fácil aplicar emoção à matemática. Acho que eu e o Antony estamos na mesma categoria, mas existe outra categoria que é mais teatro. Acho que a música é mais humana do que ciências como psicologia e sociologia, que tentam analisar o comportamento humano e transformá-lo em ciência. Acho que é uma contradição.
''Volta'' é sobre percussão, beats e ritmos...
Eu sempre fui muito ligada a ritmos. Passei dez anos em uma banda com Sigtryggur Baldursson (Sugarcubes), que até hoje eu acho que é um dos melhores bateristas do mundo. Minha idéia era ter ritmos que fossem globais neste disco, para mudar um pouco a idéia negativa que ''global'' tem atualmente, com supermercados, McDonald's e o povo dos Estados Unidos virando os mestres do universo. Existe um outro lado disso, que depende da gente, das pessoas, não está limitado ao Bush. Nós somos 6 bilhões, ele é só um. Eu estava muito irritada com tudo o que tem a ver com nacionalismo, um país contra o outro. Li alguns livros sobre a natureza humana antes das nações, antes da Bíblia e de toda essa coisa de patriotismo.
Em Wanderlust, você trata do fim das fronteiras (''I have lost my origin/And I don't want to find it again'' ou ''Perdi minha origem/E não quero encontrá-la novamente''). Você acredita que não é de lugar nenhum e ao mesmo tempo é de todos os lugares? É por aí?
Era o que eu queria mesmo dizer. Ser global não significa sacrificar sua conexão com a natureza. As nações vão se unir. Daqui a cem anos, vão haver poucas grandes nações. É uma coisa boa, não necessariamente um mal.
Em ''Volta'', você teve alguma influência brasileira? A viagem para a Bahia rendeu alguma inspiração?
Foi extraordinária. Eu sou da Islândia e estou morando agora nos Estados Unidos. Aqui, para eles, eu sou exótica, mas a verdade é que 90% do mundo é ''exótico''. Eu sou muito fechada, tento me proteger o tempo todo, me defender. Então achei que não podia ir ao Brasil, comprar uma camiseta, dar um ''ciao'' e sair atrás de algum ritmo, como uma turista. Não podia fazer isso. Talvez eu tenha muito respeito.
Você sente alguma conexão com o Brasil?
Quando estava na adolescência havia um movimento forte para achar a voz da Islândia - em vez de uma voz ''escandinava''. A gente lia muitos livros da América do Sul e de outras partes. Realismo mágico é muito popular por lá. De uma certa maneira, há muita afinidade com a América do Sul por aí, pela literatura, que é completamente diferente do que vem da Escandinávia. Sobre música, ouço coisas de tudo que é lugar: do Vietnã, da Indonésia, do Camboja, da Sibéria, da África... O que eu admiro muito na América do Sul e em outros países é que a música pop não precisa ser estúpida. Pode ser uma generalização, mas acho que as pessoas aí estão ouvindo o ritmo, as letras têm mais a ver com poesia. Na Islândia é um pouco assim também. A poesia é muito forte.
Você já disse em uma entrevista que não é tão experimental assim; o mundo é que está passando por uma fase muito conservadora. O que você acha que é mais interessante agora? O que gosta de escutar?
Gosto de Santo Gold, M.I.A., Joanna Newsom, gosto de um monte de coisas diferentes. Talvez exista uma nova ordem agora, menos conservadora, que vem de gente que tem o inglês como a segunda língua. É a maior comunidade do mundo atualmente! Acho que essa turma vai ter mais espaço.
Uma das notícias musicais mais relevantes da semana passada é a história de que o Radiohead vai colocar o novo disco na internet e os fãs vão poder pagar o que quiserem para fazer o download. Você acha que este é o futuro da música?
Talvez não completamente, mas acho que é muito honesto. O que eu acho difícil hoje em dia é que a indústria fonográfica é um dinossauro. É uma máquina tão grande! Eu acabo um disco, passo para eles e leva seis meses, um ano para eles lançarem. A gente leva oito meses para fazer o álbum e um ano para promovê-lo. É ridículo. Podia fazer sentido dez anos atrás, mas agora você grava uma canção e coloca no MySpace na hora. O jeito arcaico todo mundo detesta: músicos, fãs... Só os dinossauros gostam, aqueles que estão vivendo no passado. Talvez não seja a solução final, mas pode dar certo. Se vai vazar de toda forma, então é melhor você mesmo vazar para os fãs e perguntar quanto eles querem pagar.
Com a internet tão grande, acabo passando cada vez mais tempo online, descobrindo novas bandas. Eu adorava ir uma vez por mês a lojas de discos. Passava três horas lá, pesquisando tudo e recebendo dicas. Com a Internet, esse contato físico acabou. A relação virtual com a música, em casa, fez com as que as pessoas ficassem mais famintas por música ao vivo. Nos últimos tempos, ingressos de shows duplicaram, triplicaram de preço, mas muito mais gente tem ido a shows. No futuro, acho que álbuns vão apenas promover os shows ao vivo. O bom é que a música voltou a ser dos artistas e deixou de ser de um edifício com 500 pessoas. Muito dinheiro saiu do negócio, mas está indo para outras áreas... Quem está aí para ganhar dinheiro vai embora. Quem gosta de música fica.
Você já está na estrada com este show há vários meses. Como está sendo a experiência? Mudou alguma coisa?öÉ o mesmo show, mas está crescendo. A banda de metais está ficando cada vez melhor. A gente consegue também ser mais impulsivo com os instrumentos eletrônicos, porque deu para dominá-los melhor. Muitas das canções de ''Volta'' foram escritas para performances ao vivo. As versões do CD não são as melhores. Para mim, elas estão ficando muito melhores na medida em que a gente faz os shows. (Agência Estado)





