Os excêntricos de araque povoam o circo pop. Nada mais incompatível nesse meio do que a cantora islandesa Bjork, agora também uma premiada atriz. Ela é a estrela do filme ‘‘Dançando no Escuro (Dancer in the Dark)’’, do dinamarquês Lars Van Trier, que será exibido hoje em sessão única na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e cuja trilha sonora acaba de chegar às lojas.
Se o filme rendeu-lhe mais popularidade com a conquista do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em março passado, a trilha vai no extremo oposto reunindo seis composições indigestas para o grande público. ‘‘SelmaSongs’’ (Universal) traz apenas sete faixas, todas de autoria da cantora. O título do disco faz alusão à personagem interpretada por ela na tela, uma operária e imigrante tcheca que vive na América dos anos 50 e que sofre o diabo com uma doença que a deixa cega ameaçando tirar também a visão de seu filho.
Para esquecer seu drama, ela busca refúgio ensaiando passos de musicais de Hollywood. À época do lançamento do filme, Bjork contou em entrevistas que chorou convulsivamente ao primeiro contato com o roteiro: lia dez páginas e se derramava. As músicas que compôs para a trilha, contudo, são menos tristes do que intrigantes e até enfadonhas. É seu primeiro disco depois de ‘‘Homogenic’’, lançado há três anos e considerado por muitos o melhor trabalho de sua carreira.
É um disco de encomenda, uma pausa para aliviar seus fãs da espera do álbum ‘‘Domestique’’, anunciado para 2001. Combinando cordas e arranjos para metais, a sinfônica ‘‘Overture’’ abre a trilha de forma solene e recebe uma versão cantada em ‘‘New World’’, última faixa e a mais bem resolvida do CD. Ao longo do repertório, Bjork volta a investir na comunhão de cellos, violinos e efeitos eletrônicos.
Sucedem-se melodias tortuosas e harmonias complexas entre as quais aparece o incipiente dueto vocal entre Bjork e Thom Yorke (vocalista da banda Radiohead) em ‘‘I’ve Seen It All’’. Pretensiosa, não mais do que isso, ‘‘In the Musicals’’ mistura som de big band, orquestração, solo de xilofone, harpa e percussão. Mas intragável mesmo é ‘‘Cvalda’’, que mescla agudos irritantes de Bjork com ruídos industriais, harpas, vocais da atriz francesa Catherine Deneuve e menção aos antigos musicais.
‘‘Cvalda’’ é o nome da personagem de Deneuve, também uma imigrante, amiga e protetora de Selma. ‘‘SelmaSongs’’, quarto álbum-solo da cantora (excluindo aqui o disco de remixes ‘‘Telegram’’, de 1996), contou com arranjos
do maestro Vincent Mendoza e colaboração dos amigos Mark ‘‘Spike’’ Stent e Mark Bell (que divide a produção com Bjork). Em algumas faixas, ela teve a parceria de Lars Von Trier, o diretor do filme que a teria convidado para trabalhar depois de assistir o clipe da canção ‘‘It’s oh so quiet’’ (do álbum ‘‘Post’’, de 95), uma homenagem aos musicais de Gene Kelly e Fred Astaire.
‘‘Selma Songs’’ é curto, mas arrastado. Atravessar seus 32 minutos, requer travesseiro e colchão.