Quando o rock brasileiro, sufocado pela onda Disco, voltou a dar sinais de vida, no começo da década de 80, alguns grupos despontaram nas rádios com elementos pop e de MPB. Ao contrário do que se imagina, o crossover - mistura de estilos - não é exclusividade dos anos 90.
Entre essas bandas emergentes estava o 14 Bis, grupo de Belo Horizonte liderado por Flávio Venturini, ex-tecladista do Terço, que enveredou pelos sons progressivos nos anos 70. O 14 Bis reuniu características dos mineiros do Clube da Esquina - Beto Guedes, Lô Borges e Milton Nascimento - com rock progressivo, sons acústicos e arranjos vocais.
O primeiro disco saiu em 1980 e trazia a primeira versão de ‘‘Canção da América’’, depois gravada por Milton Nascimento e Elis Regina. Na mesma década, o grupo emplacou vários sucessos como ‘‘Linda Juventude’’, ‘‘Caçador de Mim’’, ‘‘Nova Manh㒒 e ‘‘Todo Azul do Mar’’.
Agora, quase 20 anos depois, o 14 Bis faz um balanço da carreira com ‘‘Bis’’, álbum acústico gravado em estúdio e lançado pela Universal. O repertório, previsível, foi selecionado entre mais de 120 composições. No embalo do revival, o grupo convidou velhos companheiros, como Beto Guedes, Lô Borges e Flávio Venturini - que saiu da banda em 1987 - para participações especiais.
Além de duas faixas inéditas, ‘‘Sonhando o Futuro’’ (Cláudio Venturini/ Lô Borges) - interpretada por Lô Borges e Vanessa Rangel - e ‘‘Tudo Céu’’ (Vermelho/Sá), o CD não traz grandes novidades. A banda economiza no instrumental, devido à falta de teclados - alguns arranjos foram transpostos para quarteto de cordas.
‘‘É uma olhada na carreira toda, mas com arranjos acústicos, pois a gente sempre tocou muito com violão e piano. Muita gente conhece nosso repertório, mas não associa as músicas ao grupo’’, explica o guitarrista Cláudio Venturini, em entrevista por telefone.
Samuel Rosa, do Skank, abre o CD com ‘‘Bola de Meia, Bola de Gude’’ (Milton Nascimento/Fernando Brant), seguido por Flávio Venturini em ‘‘Linda Juventude’’ (Flávio Venturini/Márcio Borges). Entre os convidados ainda estão Beto Guedes, em ‘‘Caçador de Mim’’ (Sérgio Magrão/Luiz Carlos Sá); Lô Borges, em um pot-pourri de ‘‘Natural’’ (Flávio Venturini/Tavinho Moura) e ‘‘Nova Manh㒒 (Flávio Venturini/Vermelho/Tavinho Moura); Leo Gandelman, em ‘‘Todo o Azul do Mar’’ (Flávio Venturini/Ronaldo Bastos); e ‘‘Boca Livre’’, em ‘‘Canção da América’’ (Milton Nascimento/Fernando Brant).
O repertório reúne medalhões lançados durante a década de 80, um momento da indústria fonográfica bem diferente do atual: ‘‘Houve uma abertura maior na mídia para o meio musical, e há uma série de nichos no mercado. Como as rádios tocam sempre a mesma coisa, sugerem uma idéia errada do movimento musical brasileiro’’, acrescenta Cláudio.
Lançado na rebarba de uma onda de discos acústicos, ‘‘Bis’’ não deve ser visto como um modismo, segundo o músico: ‘‘A gente sempre teve essa coisa de juntar dois ou três violões e cantar. Estamos voltando exatamente de onde viemos, portanto ninguém vai poder falar que é oportunismo’’.
O 14 Bis deve entrar em turnê nacional a partir de São Paulo, passar pelo Nordeste, Belo Horizonte e viajar ao Sul do País. Entre os projetos da banda está o aproveitamento de músicas inéditas - que ficaram de fora deste CD - para o lançamento de um novo disco. Outra novidade é o songbook do grupo, com 30 músicas, organizado por Vermelho e Luciano Alves - que participou dos Mutantes -, que deve chegar às livrarias ainda este mês incluindo arranjos para vocais.

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