Biologia poética
Simone Mattos
De Curitiba
Sem alarde, sem festa, sem lançamento oficial. Foi assim que o novo livro do escritor Wilson Bueno chegou ao mercado nacional. Jardim Zoológico (R$ 17,00, Iluminuras), tem prefácio do artista Arnaldo Antunes e narra em 94 páginas o que o escritor costuma chamar de o mágico reinventado. É a descrição fantasiosa de mais de 30 monstros do imaginário primitivo.
O livro representa um avanço dentro de uma vertente literária que teve início há seis anos, com a publicação de Manual de Zoofilia (Noa Noa). Na verdade, o interesse pelos animais sempre acompanhou Bueno. Acredito que eles têm uma fala escondida e inaudível aos ouvidos humanos, uma língua secreta que só a literatura traz à tona, explica.
Jardim Zoológico começou a ser escrito há dois anos. Neste período, a imaginação de Wilson Bueno foi povoada por ivitús, guapés, giromas, cordes, êulikes, nuncas, kwiuvés, nácares e outras intrigantes figuras que se situam exatamente na fronteira entre a realidade e a ficção.
Entre o extenso inventário de monstros criados pelo imaginário primitivo, alguns merecem destaque. O Agôalumen, por exemplo: um ser feito de água, cujo ventre abriga um completo mundo marinho, composto por algas e peixes.
Atestam os primeiros navegadores lusos a aparição, a oeste da rota atlântica das Índias em águas raramente visitadas pelos próprios navegadores, por temerárias de um monstro em todos os sentidos extraordinário: o Agôalumen, monstro marinho e aéreo capaz de voar a consideráveis altitudes e retornar, intacto, ao fundo das águas, assim que se precipite a noite do grande mar, diz um trecho do livro.
Wilson Bueno fez a sua estréia literária em 1986, com Boleros Bar (Criar Edições). Dirigiu o jornal Nicolau, em Curitiba, de meados dos anos oitenta até a metade da década de 90. Em 1991, escreveu Manual de Zoofilia e Ojos de Agua (El Territorio, Argentina).
No ano seguinte foi publicado o excepcional Mar Paraguayo. A obra foi recentemente incluída na antologia Medusario, publicada pela Fondo de Cultura Economica do México. Além de Wilson Bueno, apenas dois escritores representam o Brasil na antologia latino-americana: Haroldo de Campos e Paulo Leminski.
Depois do sucesso de Mar Paraguayo, Wilson Bueno lançou Cristal (1995, Siciliano), rapidamente considerado um sucesso de vendas. Em 1996, chegou às livrarias o único livro de poesias do autor: Pequeno Tratado de Brinquedos (Iluminuras).
Atualmente, Bueno está trabalhando em sua nova obra: Meu Tio Roseno a Cavalo, que será publicada pela editora paulista 34 Letras, no primeiro semestre do próximo ano. O romance conta a micro-saga de um tio, que corta o Paraná de Oeste a Leste e de Sul a Norte.
Para não perder o hábito, os animais estão presentes do começo ao fim do novo livro. Aliás, observando a trajetória literária de Bueno, é fácil observar que a fauna sempre aparece, ecoando em todas as obras.





