No livro ‘‘O Hitler da História’’, o historiador John Lukacs assumiu o papel de advogado do Diabo. Mas Lukacs não é um neonazista, nem um anti-semita. Ele simplesmente decidiu passar a limpo a História e tentar desmitificar o papel demoníaco que os historiadores criaram em torno da figura de Adolf Hitler. É esse olhar crítico sobre os historiadores que se debruçaram sobre a vida do ditador alemão que Lukacs apresenta. O livro, no entanto, não tem a pretensão de ser uma biografia. Sendo assim, não é Hitler quem senta no banco dos réus para ser julgado, mas sim seus biógrafos.
Sem cerimônia, Lukacs condena, absolve, critica e escolhe até mesmo as melhores biografias. Entre as melhores estão a de Ernst Deuerlein, publicada em 1969, e a de Joachim Fest, publicada em 1973. O autor tem o cuidado, no entanto, de não eleger a pior biografia, mas não poupa adjetivos nas críticas. Uma das mais citadas neste aspecto é a escrita pelo americano William Langer, considerada pelo autor como requentada e indigna de ser mencionada. Na análise dos livros, o autor observa idéias, texto e traça até um paralelo entre as experiências dos biógrafos e a forma como escrevem. Com tantas análises, ‘‘O Hitler da História’’ (Editora Jorge Zahar/248 páginas) tem uma extensa lista de notas de referências, que ocupa 58 páginas do livro. As notas referem-se a mais de 100 biografias sobre Hitler lidas pelo autor.
Ao longo de toda a obra, Lukacs insiste que Hitler é uma figura histórica que deve ser analisada pelas ações e consequências dos seus atos. O autor argumenta que, comparado com outros personagens históricos, como Benito Mussolini, Napoleão Bonaparte e Joseph Stalin, Hitler tinha um talento intelectual considerável. Lukacs chega mesmo a considerar que se o ditador alemão não tivesse declarado guerra à Inglaterra e aos países aliados, teria sido visto como o herói que conseguiu derrotar o monstro comunista na figura de Stalin. Esse jogo de interpretações e análises do que poderia ter acontecido serve de argumento para Lukacs enfatizar que cada biógrafo considerou Hitler sob a luz das próprias experiências, cultura e preconceitos, tornando impossível de ser formada uma clara figura do ditador.
A onda de biografias começou, segundo o autor, no início da década de 70, devido principalmente a três fatores: o surgimento de uma nova geração de curiosos sobre os efeitos da Segunda Guerra, a disponibilidade de um número maior de fontes e documentos e o declínio gradual da Guerra Fria. Assim, no primeiro capítulo, Lukacs analisa essas biografias, tentando explicar o extremo interesse que o ditador alemão provocou nos historiadores e no público. As opiniões variam entre a apologia de Hitler até a dissecação da vida do Fuher. Os outros capítulos tratam das diversas imagens que Hitler gerou. Lukacs reflete sobre a questão de o ditador ter sido um reacionário ou um revolucionário, fala do problema do racismo, do nacionalismo e da tragédia do Holocausto, com a morte de milhares do judeus em campos de concentração.
Um dos pontos das biografias que mais impressionaram o autor foi o tratamento do Fuher pelos historiadores alemães. Segundo Lukacs, eles consideram principalmente as frequentes mudanças e incertezas políticas do ditador e a forma como ele era influenciado e manipulado pelos que o rodeavam. Lukacs assusta-se com o fato desse julgamento servir para minimizar a implicação da responsabilidade de Hitler no Holocausto.
Apesar do tema mundialmente conhecido, ‘‘O Hitler da História’’ não é um livro fácil de ser lido. Com uma linguagem acadêmica, foi feito para historiadores, especificamente aqueles que se interessam pela figura do ditador. Não vai ser nesse livro que o leitor comum vai encontrar detalhes sobre a vida de Hitler. Como o próprio autor deixa claro, não é uma biografia. Lukacs também não tem a pretensão de esgotar todo o assunto. Desde o primeiro parágrafo ele avisa: ‘‘Não terminamos ainda com Hitler.’’ E tudo indica que não estará terminado enquanto vender livros.

mockup