Já nas primeiras linhas de ''Machado de Assis, um Gênio Brasileiro'', Daniel Piza esclarece: ''Sabemos pouco sobre fatos fundamentais da sua história; não temos certeza de onde estudou, se foi coroinha, quando teve o primeiro ataque epiléptico, quem namorou antes de Carolina, com quem viveu por 34 anos''. Na abertura da palestra que deu em Curitiba, em novembro, como primeiro convidado do projeto UniBrasil Futuro, que visa trazer pensadores ao Estado, Piza anunciou: ''Vim aqui derrubar alguns mitos do que chamo 'verbete Machado de Assis' que temos em nossas cabeças''.
O jornalista e escritor promoveu desconstrução semelhante na apresentação que fez ao elenco e à equipe da série ''Capitu'', a qual também colaborou no roteiro. ''Reforcei que Dom Casmurro não é um livro sobre uma traição'', que em sua opinião é provável, mas não comprovável. ''É uma obra sobre um homem tentando recuperar a vida que levou. Quatro quintos do livro não tratam de Capitu.''
A biografia escrita por Piza, e publicada em 2005, é a primeira sobre Machado em mais de 20 anos - a última havia sido a atualização do texto de Raimundo Magalhães Jr., em 1981. ''Foram dez anos de pesquisa. Comprei tudo sobre a época em que viveu. São quase 25 anos lendo Machado de Assis toda semana'', diz Piza, que tem 38 de idade.
O biógrafo conta que não são poucos os mitos a respeito de Machado, muitas vezes confundindo escritor e obra. Preferiu buscar provas documentais ao invés de cometer mais imprecisões. Cita um documento de Machado de Assis que mostra a assinatura de seus pais, indicando que eram alfabetizados - tese reforçada, na opinião de Piza, pela comprovação de que havia a assinatura de um almanaque na sua residência. Logo, ainda que pobre, Machado teve como pais pessoas que faziam parte dos 16% da população brasileira que eram alfabetizados naquele momento.
''Machado foi funcionário público no topo da carreira, derrubando o mito de que não existia mobilidade social na época'', lembra. O escritor viveu entre 1839 e 1908. ''Aos olhos da sociedade, ele foi ficando cada vez mais branco'', diz. Tanto no quadro feito após a sua morte - e até hoje exposto na Academia Brasileira de Letras, a qual participou da criação - como em seu obituário, o preconceito do momento histórico fica evidente: Machado é tratado como branco.
Na biografia, Piza escreveu: ''A vida de Machado interessa por sua obra, e sua obra interessa por refletir o Brasil de sua época - ainda vivo em tantos aspectos - e investigar a natureza humana de sempre.'' O escritor, que faleceu em 1908, aos 69 anos, ultrapassou e muito a expectativa de vida daquele momento.
Na opinião do autor da biografia não há escritor mais atual que Machado. Milton Hatoum não teria o seu humor. Dalton Trevisan seria dono de uma escrita explícita que não existe em Machado. ''Ele publicou em vários estilos. Ninguém consegue alcançar sua abrangência.''
Piza valoriza a iniciativa de adaptar o autor para televisão. Sobre o fim da vida do escritor, afirma que foram anos melancólicos desde a morte da esposa, em 1904. Difíceis também pela convalescença: a retinite atacava os olhos; comia com dificuldade, o que, por fim, lhe resultou em um câncer de boca. Daniel Piza ressalta o adjetivo que usa no título de seu livro. ''Morreu na condição de gênio, como o grande autor brasileiro'', diz. ''Morava em um chalé alugado. Deixou uma mesa de xadrez, cadeiras de jacarandá, 1600 livros, uma cama de ferro e Letras do Tesouro.''

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