São Paulo, 23 (AE) - Há 20 anos morria Charles Mingus, o maior contrabaixista da história do jazz e um dos mais importantes compositores do gênero. A revista "The New Yorker" assinalou que "Epitaph", peça do compositor que teve estréia póstuma, representava o primeiro avanço na composição jazzística desde "Black, Brown and Beige", de Duke Ellington. Confiante que essa peça complicada, de duas horas de duração, jamais seria tocada enquanto vivo, Mingus a chamou de "Epitaph" (Epitáfio). "É algo reservado para a minha tumba", disse.
A história de Mingus, morto em 1979, é contada diariamente por duas bandas que atualizam no palco seu repertório, a Mingus Dynasty e a Mingus Big Band, superativas. E também por meia dúzia de biografias editadas e reeditadas frequentemente, como "Mingus/Mingus", de Janet Coleman e Al Young; "Mingus: A Critical Biography", de Brian Priestley, e a autobiografia "Beneath the Underdog: His World as Composed by Mingus". Mas eis que um europeu achou uma maneira diferente de contar a saga de Charlie, uma versão ilustrada e com um texto preciosista como haicais.
"Mingus", do desenhista belga Louis Joos, acaba de sair na Europa pela editora belga Pyramides, é um livro excepcional (ainda não existe nas importadoras nacionais). Louis Joos, também autor de uma biografia gráfica de Thelonious Monk, é célebre por retratar jazzistas com um estilo único. Seus desenhos ilustram cartões em casas de jazz no mundo todo. Mas há algo que pouca gente sabe sobre Joos: ele jamais foi à América. Vale-se de registros fotográficos e de sua imaginação para criar os retratos.
Conterrâneo de Hergé, Franquin, Vandersteen e outras feras do desenho belga, Joos vai na contramão da ficção, preferindo fazer do seu traço um registro documentário, visual, da obsessão pelo jazz. Joos também é pianista e desenha cenários para espetáculos teatrais. Em 1997, ele publicou - após toda uma série destinada ao jazz - a biografia gráfica de Thelonious Monk pela Points Image, também de Bruxelas.
Joos é fiel ao estilo eternizado pelos grandes fotógrafos do jazz, como Herman Leonard. Reproduz - sem ser naturalista - os ambientes enfumaçados, densos, escuros dos clubes de jazz. Com apenas uma espécie de borrão negro, ele reproduz Mingus com seu charutão cubano, perdido na instrospecção de compositor ou na solidão mais cortante. Pianista e baixista genial, além de bandleader e compositor, Charles Mingus nasceu em Nogales, Arizona, em 1922. Cresceu em Watts, Califórnia, e seu interesse pela música começou como começa com quase todo garoto negro americano: na igreja e nos coros, cantando. Gastava as tardes ouvindo Duke Ellington no rádio, quando tinha apenas 8 anos. Estudou baixo com H. Rheinshagen, baixista da New York Philharmonic, e técnicas de composição com o lendário Lloyd Reese. Iniciou sua experiência profissional nos anos 40, fazendo turnês com as orquestras de Louis Armstrong e Lionel Hampton.
Nos anos 50, divertia-se em Nova York tocando com alguns expoentes de sua época: Charlie Parker, Miles Davis, Bud Powell, Art Tatum e o próprio Duke Ellington. Na metade dos anos 50, formou sua banda. Produziu discos a rodo: "Pithecanthropus Erectus", "The Clown", "Tijuana Moods", "Mingus Dynasty", "Mingus Ah Um", "The Black Saint and the Sinner Lady", "Cumbia and Jazz Fusion", "Let My Children Hear Music". Preocupava-se em formar músicos e em estimular jovens compositores.
Ele morreu no México, em 1979. Foi cremado e, conforme seu pedido, suas cinzas foram espalhadas sobre o Rio Ganges, na Índia. Tanto a cidade de Nova York quanto a de Washington têm reservadas em seus ritos municipais um certo Dia de Charles Mingus. Devia ser o ano todo.

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