Biografia retrata Joseph Beuys
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de outubro de 2001
Tiago Mesquita<br> Agência Folha 
O grande desafio que o livro ''Joseph Beuys'' enfrenta é encontrar um sentido unívoco e coerente para uma obra tão abrangente e decisiva. Este artista alemão trouxe novas perspectivas na escultura, no desenho, na instalação e no que ele chamava de ''ações'', contrapondo-se à idéia de performance.
Como se não bastasse essa atividade, foi também importante personagem na Europa do pós-Segunda Guerra Mundial. Militou em causas políticas e ambientais e desenvolveu uma reflexão sobre a atuação do professor em artes.
O texto de Alain Borer que abre o volume tenta dar a esse vasto campo de interesse um sentido comum. A arte em Beuys, segundo a interpretação do poeta e crítico francês, não terminaria nas suas intervenções plásticas, mas se estenderia à vida, propondo uma utopia em que o aguçamento da sensibilidade reconciliaria homem e natureza.
Saindo do texto e olhando para os trabalhos, encontramos um artista menos convicto. A obra de Beuys parece enfrentar os problemas da arte. Lida com a matéria e a reconfigura no espaço, e só o faz levando em conta todas as suas dificuldades estruturais. Apoiar-se num pensamento sistematizado, coerente e certeiro como estruturação da obra pode limitar nossa compreensão.
Mas o grau de comprometimento de Beuys com as questões colocadas acima não pode ser ignorado. Suas convicções, reflexões teóricas e corpus doutrinário estão neste trabalho, mas ele também guarda sua especificidade quanto a todo o resto. Observar o que há de peculiar, talvez nos ajude a entender com mais fineza a reflexão de Beuys, exposta com tanta clareza no livro.
O ponto de partida do texto, a comparação entre Beuys e Marcel Duchamp, é muito útil. Borer contrapõe os dois artistas, a invenção do ''ready made'', no início do século, pelo segundo, evidenciaria a impossibilidade de ação na arte. Um urinol deslocado para o museu relaxa a fixidez dos significados no objeto. As coisas, sobretudo a arte, perderiam o sentido, tornando-se depositário dos sentidos que o mundo lhe impõe. Dessa maneira a ação se veria quase impossibilitada.
Na chave inversa, Beuys se aproveita desta dispersão de significado das coisas, e procura algo que estava escondido por trás do nome delas ou de sua função socialmente estabelecida. Em suas esculturas, utiliza sempre alguns materiais (como o feltro, o cobre, a gordura etc.), dispondo-os sem disfarce. Sua mão não é virtuosa como a de Picasso, que torcia as coisas e as reconfigurava em algo totalmente novo e inusitado. Ao que parece, este gesto poderoso, capaz de vergar o mundo, não é mais possível.
Beuys vem da experiência da Alemanha nazista. A confiança extremada na razão humana como libertação foi abalada pelo uso do mesmo conhecimento técnico como forma de extermínio. Portanto sua ação vai com bastante vagar, não descaracteriza os elementos orgânicos que usa. Ao colocá-los lado a lado, eles surgem, mais pacientes. Nota-se que com o tempo as imposições de suas atribuições funcionais vão sendo esquecidas. As partes passam a se energizar mutuamente, retirando os elementos de sua opacidade cinzenta e nos fazendo perceber nossa indiferença, que mediava nossa sensibilidade como escama.
Nesta busca de uma verdade das coisas, o artista procura estender as capacidades sensitivas do homem. Tal procedimento se estende para as ''ações'' do artista. É conhecido o episódio de sua conferência, onde ele convidou a audiência a aspirar o ar com ele, sentindo o que poderia existir de singular e intenso lá. É desse desejo de reconciliar o homem com seu mundo, em uma troca energética permanente, onde um revitaliza o outro, que parece se alimentar a obra de Beuys.
A redenção do homem com as coisas, parece o final que o artista pretendia nesta troca de forças. De fato ela não ocorreu. Mas a força de Beuys não se dá no campo das intenções. Provavelmente, nossa relação com o mundo hoje é mais predatória. Mas a obra de Beuys nos abriu a possibilidade da arte se reconciliar com o mundo, tornando-se capaz de mostrá-lo reavivado a nós e vice e versa.
Joseph Beuys, biografia sobre o artista escrita por Alain Borer, com tradução de Betina Bischof, Editora Cosac & Naify, R$ 112,00, 240 páginas.


