Biografia não autorizada, mas tolerada
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
Felipe Branco Cruz<br> Agência Estado 
Uma dúvida que aflige alguns leitores de ficção é se o autor daquele sensacional livro tem (ou teve) uma vida tão fantástica quanto a de seus personagens. Afinal, é razoável supor que, para escrever sobre alguma coisa, o autor deva ter vivido de alguma forma parte daquilo. O colombiano Gabriel García Márquez, ou simplesmente Gabo, 83 anos, ganhador do Nobel de Literatura em 1982 e autor de clássicos atemporais como ''Cem Anos de Solidão'' e ''O Amor nos Tempos do Cólera'', é um escritor cuja vida não deixa nada a desejar em relação às fabulosas histórias que já contou em seus livros.
Sua trajetória é contada na biografia ''Gabriel García Márquez - Uma Vida'', escrita pelo inglês Gerald Martin e lançada recentemente no Brasil pela Ediouro. A obra foi publicada originalmente em 2008, na Inglaterra, e desde então vem sendo considerada como a mais completa sobre Gabo. Há, pelo menos, sete biografias sobre o autor, inclusive a ''Viver Para Contar'', escrita pelo próprio Gabriel García Márquez, mas que contém muita informação fantasiosa.
O escritor colombiano é dono de um estilo que muitos consideram como sua criação: o realismo mágico. Em suas obras, Márquez capta a essência de pequenas cidades da Colômbia e as transforma em pano de fundo para romances inesquecíveis. Na biografia, Martin mostra que a inspiração para criar esses cenários veio da pacata cidade colombiana de Aracataca, de apenas 10 mil habitantes, onde nasceu Gabriel García Márquez.
O escritor colombiano atingiu um ponto que poucos conseguiram no mundo: ser reconhecido como um autor sério, talentoso e ao mesmo tempo ter status de celebridade. Gabo é quase uma unanimidade no mundo da literatura. Cortejado por boa parte dos homens mais poderosos do mundo, como Bill Clinton, o colombiano se manteve como um pessoa de esquerda, flertou com o comunismo e virou amigo de Fidel Castro.
Para contar essa história, Martin pesquisou durante 18 anos, acumulou 2 mil páginas escritas e 6 mil notas de rodapé. Nas livrarias, o que se vê é um calhamaço de 814 páginas que, segundo o autor, foram publicadas para dar a Gabriel García Márquez a oportunidade de ler antes de morrer. Agora, Martin trabalha numa nova versão, que terá duas mil páginas e ainda sem prazo para ser lançada.
Logo nas primeiras linhas, o autor inglês revela que foi desacreditado pelos amigos quando falou da vontade de fazer a biografia. ''As pessoas diziam que eu jamais conseguiria vê-lo. E se conseguisse, ele não iria cooperar'', escreve Martin. O biógrafo não só falou com Gabo, como conseguiu que ele cooperasse dando amplo acesso aos arquivos mais pessoais.
A primeira impressão, no entanto, não foi boa. Eles se encontraram em Havana, Cuba, em 1990. O vencedor do Nobel teria dito que não precisava de uma biografia. ''Biografias significam morte''. Mas, felizmente, Martin o convenceu do contrário. Na ocasião, Gabriel García Márquez acabou dando seu aval e disse: ''Mas não me obrigue a fazer o seu trabalho''. Ao que parece, o biógrafo cumpriu o prometido. Foram feitas mais de 300 entrevistas, inclusive com o ditador cubano Fidel Castro.
No livro, ao explicar sua metodologia, Martin diz que todas as entrevistas e leituras que ele teve de fazer para compor a obra foram em espanhol, mas os originais foram escritos em inglês. Para justificar isso, ele usa uma frase do próprio Gabo, que certa vez afirmou que todo escritor respeitável ''deveria ter um biógrafo inglês.''
Uma vez aberto, Gabriel García Márquez se mostrou um homem brincalhão, antiacadêmico e a favor de mitificações fantásticas, como as criadas por ele mesmo para seus personagens. Sobre o autor de sua biografia, o colombiano teria espalhado para a mídia que Martin teria ficado uma noite inteira ensopado de chuva, sentado num banco de praça em Aracataca, apenas para absorver a atmosfera da cidade. Fato que Martin desmente veementemente. Mesmo assim, o autor inglês prefere dizer que esta biografia não é autorizada, e sim tolerada. Ao melhor estilo García Márquez.


